Moradores das áreas mais pobres de Campinas têm risco de morte por câncer significativamente maior do que os de regiões ricas, mesmo apresentando menos diagnósticos da doença. A conclusão é de um estudo inédito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que analisou dados de 2010 a 2019 e revelou como a desigualdade social determina quem sobrevive ao câncer na cidade.
A pesquisa, conduzida no âmbito do Centro de Pesquisa e Inovação em Terapia contra o Câncer (CancerThera), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), cruzou informações do Registro de Câncer de Base Populacional (RCBP) de Campinas e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Foram analisados 34.602 casos de câncer e 15.601 óbitos no período, utilizando o Índice Relativo de Desigualdade (RII) para medir as disparidades entre os estratos sociais.
Os resultados mostram que, embora a incidência geral de câncer seja menor nas populações de baixa renda — 226,9 casos por 100 mil habitantes contra 293,4 nos mais ricos —, a mortalidade é desproporcionalmente maior. “A vulnerabilidade social interfere diretamente no prognóstico, independentemente da incidência”, afirma o estudo.
Entre os homens, a desigualdade foi mais acentuada nos cânceres de próstata, estômago e cavidade oral. Nas mulheres, o câncer de colo do útero apresentou maior incidência e mortalidade nas regiões mais vulneráveis, enquanto o câncer de mama foi mais diagnosticado em classes sociais menos vulneráveis, associado ao maior acesso a exames preventivos. O câncer colorretal, por sua vez, registrou crescimento mais acelerado da mortalidade entre os grupos pobres ao longo da década.
“Os achados evidenciam que a pobreza não é apenas um fator de risco para desenvolver câncer, mas um determinante crítico para a sobrevida após o diagnóstico”, explicam os pesquisadores do CancerThera. A dificuldade de acesso a exames preventivos, diagnóstico precoce e tratamento adequado são apontados como as principais causas das disparidades.
Desigualdade no acesso ao diagnóstico e tratamento
O estudo lança luz sobre uma realidade que vai além de Campinas. Dados do Observatório de Oncologia mostram que as desigualdades regionais e sociais no tratamento do câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) persistem em todo o Brasil, com barreiras que vão desde a falta de informação até a escassez de serviços especializados em áreas periféricas.
“O câncer de colo do útero, por exemplo, é quase totalmente prevenível com vacinação contra HPV e exames de Papanicolau, mas continua sendo uma das principais causas de morte entre mulheres pobres”, destaca o pesquisador responsável. A situação se repete no câncer de próstata, onde o diagnóstico tardio entre homens de baixa renda reduz drasticamente as chances de cura.
A pesquisa também aponta que a pandemia de covid-19 pode ter agravado esse cenário, com a interrupção de rastreamentos e consultas eletivas. Embora os dados analisados sejam pré-pandemia, os pesquisadores alertam que os efeitos da crise sanitária devem ser monitorados nos próximos anos.
Políticas públicas para equidade no tratamento oncológico
Para reverter o quadro, especialistas defendem políticas públicas focadas na equidade, como a ampliação de unidades básicas de saúde com capacidade de rastreamento, a oferta de transporte para tratamento e a criação de programas de navegação de pacientes. “Não basta ter o tratamento disponível; é preciso garantir que ele chegue a quem mais precisa”, conclui o estudo.
A pesquisa integra uma série de iniciativas do RCBP de Campinas, que desde 2010 coleta e analisa dados sobre câncer na cidade, servindo de base para o planejamento de ações de saúde. Em maio de 2025, a Unicamp sediou o I Seminário do Registro de Câncer de Base Populacional de Campinas, reforçando a importância desses dados para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.










