Trinta e oito por cento dos consumidores de Piracicaba que renegociaram dívidas no Desenrola voltaram à inadimplência em até 12 meses, índice que supera as médias de São Paulo (32%) e do Brasil (29%), segundo dados da Serasa Experian. O levantamento revela que a simples limpeza do nome não interrompe o ciclo de endividamento para uma parcela significativa da população.
O perfil dos reincidentes é claro: 62% ganham até dois salários mínimos. Nessa faixa, as dívidas de cartão de crédito rotativo e contas de consumo básico, como energia e água, são as principais responsáveis pelo retorno ao vermelho, conforme a Serasa. O score de crédito médio desses consumidores caiu 18 pontos após a renegociação, dificultando o acesso a novas linhas de financiamento.
A coordenadora do Procon de Piracicaba, em nota técnica, avalia que “a limpeza do nome é só o primeiro passo, mas sem controle do fluxo de caixa e oferta de crédito a juros baixos, o consumidor fica vulnerável”. O órgão registrou aumento de 15% nas queixas de renegociação frustrada após o Desenrola, com relatos de parcelas incompatíveis com a renda.
O abismo entre a cartilha do Desenrola e o bolso do piracicabano
As cinco recomendações do programa, divulgadas pelo Estado de Minas, incluem anotar gastos por 30 dias, criar orçamento com limites, formar reserva de emergência de três a seis meses de custo de vida, usar crédito com inteligência e monitorar o Serasa Score. Para o consumidor médio da região, porém, a distância entre a teoria e a prática é grande.
Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias na região metropolitana de Piracicaba atingiu 52,3% da renda em março. O comprometimento com o crédito rotativo chega a 84% da renda disponível para quem está no vermelho. “Imprevistos são uma das principais causas de endividamento”, reconhece o material do Desenrola, mas a reserva sugerida exigiria que um trabalhador com renda de R$ 1.800 economizasse entre R$ 10.800 e R$ 21.600 — valor incompatível com a realidade de quem recorre ao programa.
O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) critica a omissão do programa sobre juros abusivos: o crédito rotativo, principal vilão da inadimplência, tem taxa média de 15% ao mês, segundo o Banco Central. Sem atacar a oferta de crédito predatório, as dicas funcionam como “enxugar gelo”, avalia o Idec.
O que ainda falta para quebrar o ciclo
Enquanto o Novo Desenrola facilita a limpeza do nome, a reincidência expõe a insuficiência das dicas de educação financeira sem mudanças estruturais. O crédito pessoal não consignado ainda opera com juros médios superiores a 100% ao ano, pressionando principalmente consumidores de baixa renda, conforme dados do Banco Central.
Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2685/2022 propõe limitar essas taxas, mas enfrenta resistência do setor financeiro e segue sem votação conclusiva. Em Piracicaba, iniciativas como o programa “Mês da Mulher Empreendedora”, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, oferecem oficinas de planejamento financeiro com resultados comprovados: 68% das participantes reduziram dívidas em seis meses, segundo balanço da pasta.
“A gente aprende a diferenciar o que é desejo do que é necessidade”, relata uma atendida em material de divulgação oficial. O Procon municipal mantém canal gratuito para orientação e renegociação, com atendimento presencial na Rua do Rosário, 607, e telefone (19) 3417-2100.











