O Nubank alcançou uma presença equivalente a 74% da população de Roraima e 73% da população do Amapá, os dois maiores índices do banco digital no país. Os percentuais aparecem em levantamento feito pela fintech em parceria com a consultoria Bain & Company e colocam a região Norte no centro de uma discussão que vai além da inclusão financeira: até que ponto o avanço de um único provedor digital amplia o acesso ao sistema bancário sem criar nova dependência?
O dado é expressivo porque Roraima e Amapá estão entre os mercados em que a rede bancária tradicional sempre teve presença limitada. Em áreas assim, chamadas pelo próprio Nubank de “desertos bancários”, a conta pelo celular ocupou um espaço que agências físicas, cooperativas e bancos regionais nunca conseguiram preencher na mesma escala.
Em Roraima, 33% da população teve o primeiro contato formal com o sistema financeiro por meio do Nubank, segundo o levantamento. No Amapá e no Pará, esse índice é de 28%. No país, a fintech afirma ter contribuído para bancarizar 31,5 milhões de brasileiros desde sua criação, em 2013.
A empresa também estima que a eliminação de tarifas e anuidades tenha gerado economia acumulada de R$ 134,7 bilhões aos consumidores até 2025. O número ajuda a explicar por que a expansão de bancos digitais ganhou força em regiões onde o custo de manter uma conta tradicional pesava mais e o acesso presencial era mais difícil.
Inclusão financeira avança onde a agência bancária não chegou
A fotografia do Norte mostra uma mudança estrutural no sistema financeiro brasileiro. A bancarização, antes associada à abertura de agência, presença de gerente e capilaridade física, passou a depender de aplicativo, internet móvel, análise automatizada de crédito e atendimento remoto.
Esse modelo reduz barreiras de entrada para consumidores que estavam fora do sistema. Uma conta digital pode receber salário, Pix, benefício, transferência e pagamento sem exigir deslocamento até uma agência. Em estados com municípios distantes, baixa densidade populacional e infraestrutura financeira desigual, a diferença prática é grande.
O avanço não se limita a Roraima e Amapá. O Nubank afirma que, em 17 estados, mais de 30% da população adulta já usa a fintech como banco principal. No Acre, 29% da população teria sido bancarizada pelo banco digital; no Maranhão, 27%; e no Tocantins, 26%. No Nordeste, o crédito concedido pela instituição teria alcançado 6,8% do PIB regional em 2025.
Concentração digital vira o outro lado do avanço
A mesma escala que fortalece a inclusão financeira também acende uma dúvida regulatória e concorrencial. Uma penetração acima de 70% da população não significa, por si só, monopólio nem abuso de poder econômico. Mas indica que a vida financeira de uma parcela relevante dos moradores passa por uma única plataforma.
O ponto sensível é que “ser cliente” não equivale necessariamente a usar o banco como conta principal, concentrar salário, tomar crédito ou depender exclusivamente do aplicativo. Ainda assim, em mercados com poucas alternativas físicas e digitais, a presença dominante de uma fintech pode reduzir o poder de escolha do consumidor na prática.
Essa diferença importa para avaliar preço, qualidade e risco. A economia com tarifa e anuidade é um benefício direto, mas não resume a relação bancária. Juros do crédito, limite disponível, atendimento, estabilidade do aplicativo, solução de fraudes e canais de reclamação também definem se a inclusão financeira melhora a vida do cliente ou apenas transfere a dependência para outro tipo de instituição.
O Banco Central monitora concorrência, concentração e reclamações no sistema financeiro, mas a regulação brasileira ainda não trabalha com uma categoria específica para “monopólio digital” regional. A concentração tende a ser observada por produtos, instituições e participação de mercado, enquanto a experiência do consumidor em áreas de baixa oferta bancária pode ser mais complexa.
O que muda para o consumidor
Para quem vive em Roraima, Amapá e outros estados com menor densidade bancária, a expansão do Nubank pode significar acesso mais rápido a conta, cartão, Pix e crédito. Também pode pressionar bancos tradicionais a melhorar serviços, reduzir custos e disputar clientes que antes estavam fora do radar comercial.
O risco aparece quando a concorrência não acompanha o mesmo ritmo. Se o consumidor tem poucas alternativas reais, uma mudança unilateral de limite, uma oscilação de serviço ou um encarecimento do crédito pesa mais. Em regiões em que a agência física já era rara, a dependência de um aplicativo passa a ser parte da infraestrutura econômica cotidiana.
Por isso, o dado de Roraima e Amapá deve ser lido como sinal de duas forças simultâneas: a fintech conseguiu chegar onde bancos tradicionais foram menos presentes, mas sua escala cria uma nova agenda para concorrência, transparência e supervisão. O próximo teste será saber se outros bancos, cooperativas e fintechs vão disputar esses mercados ou se a inclusão financeira no Norte ficará concentrada em poucos aplicativos.











