A Rússia anunciou nesta quarta-feira (29) que não exibirá veículos militares, incluindo tanques e sistemas de mísseis, no tradicional Desfile da Vitória de 9 de maio em Moscou. A decisão, sem precedentes, expõe as profundas vulnerabilidades do país em meio à guerra com a Ucrânia. A justificativa oficial foi a necessidade de “garantir a segurança” diante do risco de ataques com drones ucranianos, que se intensificaram nos últimos meses contra alvos estratégicos no coração do território russo.
Contexto
O Desfile da Vitória, realizado anualmente na Praça Vermelha para celebrar a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, é um dos eventos mais simbólicos do calendário russo. Historicamente, o Kremlin o utiliza para projetar poderio militar e coesão nacional. Desde os tempos soviéticos, a parada inclui uma imponente coluna de blindados, artilharia e, mais recentemente, mísseis nucleares. No entanto, a guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, alterou drasticamente esse cenário.
A decisão foi confirmada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em entrevista coletiva. “Este ano, por razões de segurança, decidimos não incluir equipamentos militares no desfile”, afirmou, segundo a CNN Brasil. Ele acrescentou que a medida visa “evitar concentrações de equipamentos que possam ser alvos potenciais”. A declaração reflete o temor crescente com os ataques ucranianos a longa distância, que já atingiram refinarias de petróleo, bases aéreas e até mesmo o entorno de Moscou.
Dados compilados de fontes independentes mostram que a Ucrânia intensificou sua campanha de drones contra a infraestrutura russa. Em setembro de 2025, um ataque contra uma refinaria em Ryazan, a cerca de 200 km de Moscou, causou um incêndio de grandes proporções, conforme relatado pelo G1. Mais recentemente, em março de 2026, drones ucranianos atingiram outra refinaria em Kstovo, na região de Nizhny Novgorod, provocando uma “crise de combustível” na região, segundo a DW. Esses episódios evidenciam a capacidade de Kiev de projetar poder além das linhas de frente, minando a sensação de segurança na capital russa.
Impacto
A ausência de veículos blindados no desfile é um golpe simbólico para o Kremlin, que busca retratar a “operação militar especial” como um sucesso. Analistas militares ouvidos pela reportagem da DW destacam que a decisão também reflete a escassez de equipamentos disponíveis para fins cerimoniais. Grande parte do arsenal russo está comprometido no front ucraniano. “A Rússia está sofrendo perdas materiais significativas. Muitos tanques e veículos de combate foram destruídos ou estão em uso na Ucrânia, e retirá-los para um desfile seria logisticamente complicado e arriscado”, explicou um especialista à DW.
As perdas russas na guerra são astronômicas, segundo estimativas ucranianas e de inteligência ocidental. Em fevereiro de 2026, o Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou que a Rússia já perdeu mais de 1,3 milhão de soldados entre mortos e feridos. Esse número, embora não verificável de forma independente, é corroborado por análises de think tanks como o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). No campo material, a situação é igualmente grave: a Rússia teria perdido mais de 10 mil veículos blindados, incluindo tanques modernos como o T-90, forçando o Exército a recorrer a estoques da era soviética.
A decisão de cancelar a exibição de armamentos também tem implicações políticas internas. O desfile é tradicionalmente usado para reforçar o apoio popular ao governo e ao esforço de guerra. No entanto, a medida pode ser interpretada como um sinal de fraqueza, alimentando questionamentos sobre a condução do conflito. Nas redes sociais russas, críticos do Kremlin já ironizam a situação, com memes comparando o desfile “a pé” a uma procissão fúnebre.
Para a comunidade internacional, o anúncio é mais um indicador do desgaste russo. “É uma admissão tácita de que a guerra não está indo como planejado e de que a Ucrânia tem capacidade de retaliar de forma dolorosa”, analisou um diplomata europeu sob condição de anonimato. Apesar disso, o Kremlin mantém o discurso oficial de que a “operação militar especial” atinge seus objetivos. O desfile, mesmo reduzido, deve contar com a presença do presidente Vladimir Putin e discursos exaltando o heroísmo das tropas.
Linha do tempo
- 09/05/2026 — , na Praça Vermelha, pela primeira vez em quase 20 anos, citando riscos de ataques ucranianos como justificativa
- 09/05/2026 — , conforme anunciado pelo Ministério da Defesa











