O superávit global de cacau, projetado em 247 mil toneladas para a safra 2025/26, pode encolher para apenas 50 mil toneladas em 2026/27, caso o El Niño se confirme com intensidade moderada a forte. O alerta, de analistas de commodities, acendeu um sinal amarelo na indústria chocolateira, que ainda se recupera da disparada histórica dos preços no último ano.
Após um ciclo de escassez que levou a
Após um ciclo de escassez que levou a tonelada de cacau a superar os US$ 10 mil em meados de 2025, o mercado entrou em um novo momento. Dados da Organização Internacional do Cacau (ICCO) apontam que a produção global deve atingir 4,85 milhões de toneladas em 2025/26, um aumento de 8% em relação à safra anterior. O Brasil, sexto maior produtor mundial, registrou alta de 61% na produção no primeiro trimestre de 2026, segundo a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).
Contudo, a ameaça do El Niño paira sobre as principais regiões produtoras. “O fenômeno tende a reduzir as chuvas na África Ocidental e no Sudeste Asiático, justamente onde estão Costa do Marfim, Gana e Indonésia, que respondem por mais de 70% da oferta global”, explica o meteorologista Celso Oliveira, da consultoria Climatempo. Modelos climáticos indicam 65% de probabilidade de um El Niño moderado a forte entre outubro de 2026 e março de 2027, período crítico para o desenvolvimento dos frutos.
“Se as previsões se confirmarem, a produção da África Ocidental pode cair 12%, o que eliminaria a maior parte do excedente esperado”, afirma Leonardo Rossetti, analista da Hedgepoint Global Markets. Em 2023/24, um El Niño severo reduziu a safra de Gana em 25%, contribuindo para o déficit que impulsionou os preços.
Impacto
A perspectiva de um superávit menor já repercute nos contratos futuros. Na ICE Europe, o cacau com entrega em dezembro de 2026 subiu 4,3% na última semana, cotado a US$ 6.850 por tonelada. “O mercado está precificando o risco climático, mas ainda há espaço para volatilidade, especialmente se o El Niño vier mais forte do que o esperado”, avalia Thiago Cazarini, especialista em soft commodities.
Para a indústria de chocolate, o cenário é de cautela. Grandes players como Nestlé e Mondelez vinham recompondo estoques após a crise de preços, mas podem enfrentar novos repiques. “Estamos monitorando de perto as projeções. Um superávit de 50 mil toneladas é muito apertado e não descarta déficits localizados”, diz Gabriela Garcia, analista de mercado.
No Brasil, o impacto pode ser duplo. A produção nacional, concentrada no Pará e na Bahia, não deve ser diretamente afetada pelo El Niño, mas a alta dos preços internacionais pode beneficiar os produtores locais. “O cacau brasileiro está competitivo, e a demanda por amêndoas de qualidade deve se manter aquecida”, afirma o presidente da AIPC, José Nilton de Medeiros. Por outro lado, a indústria nacional de chocolate, que importa parte da matéria-prima, pode ver seus custos pressionados novamente.
Enquanto o El Niño não se define, o setor respira aliviado com o superávit atual, mas mantém os olhos no céu. “A lição dos últimos anos é clara: o clima é o grande fator de risco para o cacau, e a resiliência da cadeia depende de investimentos em tecnologia e diversificação geográfica”, conclui Rossetti.











