O escritor Milton Hatoum entrou para a história da literatura brasileira em 24 de abril de 2026 ao tornar-se o primeiro autor nascido no Amazonas a assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Hatoum ocupa a cadeira 6, vaga desde o falecimento do jornalista Cícero Sandroni, em 2025. A cerimônia no Petit Trianon, no Rio de Janeiro, foi marcada por um forte simbolismo de descentralização cultural, celebrando a trajetória de um dos maiores romancistas contemporâneos do país, cuja obra é profundamente enraizada na paisagem e no tempo amazônicos.
A Literatura do Tempo e da Permanência
Durante a cerimônia, a acadêmica Ana Maria Machado saudou o novo imortal destacando sua capacidade de fundir o tempo histórico com a memória afetiva, criando “águas de permanência” em meio à efemeridade do mundo moderno. Em seu discurso de posse, Hatoum homenageou seus antecessores e lembrou da ausência histórica de nomes como Graciliano Ramos na instituição, sinalizando uma visão crítica sobre o papel da ABL. O autor de “Relato de um Certo Oriente” e “Dois Irmãos” reforça, com sua entrada, a relevância da narrativa regional que dialoga com dilemas universais.
Desafios e Modernização da Academia
A eleição de Hatoum é vista por críticos e entusiastas como um passo fundamental para a modernização da ABL, tradicionalmente dominada por figuras do eixo Rio-São Paulo. Fundada em 1897 por Machado de Assis, a academia enfrenta o desafio constante de se manter representativa diante da vasta e diversa produção literária brasileira. A presença de um autor amazonense de renome internacional na “Casa de Machado” não é apenas um reconhecimento individual, mas uma validação da força intelectual do Norte do Brasil no cânone nacional.
Contexto: A Obra de Hatoum
Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum é vencedor de diversos prêmios Jabuti e tem suas obras traduzidas para mais de uma dezena de idiomas. Sua escrita é conhecida por investigar os conflitos familiares e as transformações sociais da Amazônia urbana. Ao integrar a ABL, Hatoum leva consigo o peso de uma região que, embora central no debate ambiental global, muitas vezes permanece à margem do reconhecimento institucional literário no centro-sul do país.











