quarta-feira, 22 de julho de 2026
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Clovis Vaz
Clovis Vaz

Clovis Vaz

Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal...

“Pesquisa não é bola de cristal”

· 4 min de leitura

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

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A proposta de criar um selo para certificar os institutos de pesquisa que mais se aproximarem do resultado das eleições parece fazer sentido. Afinal, quem seria contra reconhecer um bom trabalho? O problema começa justamente aí. A ideia parte da falsa premissa de que pesquisa eleitoral existe para acertar o resultado das urnas.

Pesquisa eleitoral mede um momento. Registra o humor do eleitor em determinado dia, sob determinadas circunstâncias. A eleição acontece depois. Nesse intervalo, candidatos crescem, perdem força, cometem erros, fazem bons debates, enfrentam crises ou conseguem transformá-las em oportunidade. O eleitor muda de ideia, decide o voto útil, desiste de comparecer às urnas ou simplesmente escolhe um candidato na reta final. Nada disso transforma uma pesquisa séria em uma pesquisa errada.

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A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa chamou atenção exatamente para esse ponto. Em nota pública, lembrou o óbvio para quem trabalha na área: pesquisa é uma fotografia estatística de um instante. Nunca foi um exercício de adivinhação. Quando se confundem essas duas coisas, passa-se a cobrar da pesquisa uma capacidade que ela jamais prometeu ter.

Se o critério de qualidade passar a ser a proximidade com o resultado final, cria-se um incentivo perverso. Em vez de concentrar esforços para retratar com precisão o ambiente eleitoral, alguns institutos podem sentir a pressão de divulgar números que pareçam mais “plausíveis” ou mais próximos daquilo que imaginam que será o desfecho da eleição. Não porque os dados apontem nessa direção, mas porque, ao final, será considerado melhor quem estiver mais perto do placar.

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É como premiar um termômetro porque a temperatura de amanhã acabou sendo parecida com a de hoje. O mérito do instrumento continua sendo medir corretamente o presente. Pesquisa eleitoral funciona da mesma forma.

Há quem diga que o selo serviria para separar institutos sérios daqueles que trabalham sem rigor metodológico. Mas esse filtro já existe. Está na metodologia apresentada, no tamanho e na composição da amostra, na margem de erro, no nível de confiança, no registro obrigatório e na transparência dos procedimentos adotados. É isso que permite avaliar a qualidade de uma pesquisa. Reduzir essa análise ao resultado da eleição simplifica um processo muito mais complexo.

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A Justiça Eleitoral desempenha um papel essencial para garantir eleições limpas e confiáveis. Essa missão, porém, não inclui transformar a produção científica em uma disputa de acertos. A credibilidade de um instituto se constrói pela consistência de seu método, pela seriedade do trabalho e pela transparência de seus dados. Não pelo lugar que ocupa em um ranking elaborado depois da apuração.

Pesquisa eleitoral continuará desagradando candidatos que aparecem atrás e sendo comemorada pelos que aparecem na frente. Sempre foi assim e sempre será. O que não faz sentido é exigir dela uma função que nunca foi sua. Pesquisa mede o eleitor. Quem insiste em tratá-la como bola de cristal acaba entendendo mal tanto a pesquisa quanto a própria democracia.

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No fim das contas, a discussão não é sobre premiar ou punir institutos de pesquisa. É sobre compreender qual é o papel de cada instrumento dentro da democracia. A Justiça Eleitoral deve proteger a lisura do processo eleitoral. As pesquisas devem informar o eleitor sobre o cenário daquele momento. Quando se atribui a uma pesquisa a obrigação de antecipar o futuro, deixa-se de avaliar a qualidade do seu método para julgar apenas a coincidência do resultado. E democracia séria não pode trocar ciência por adivinhação.

Clovis Vaz
Empresário de comunicação e consultor político

 

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Clovis Vaz
Sobre o colunista

Clovis Vaz

Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal de Governo e de Saúde em Piracicaba, além de chefe de gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. Escreve às quartas-feiras no PIRANOT sobre bastidores da política e gestão pública.

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