A Eli Lilly anunciou nesta quinta-feira (16) a compra da biofarmacêutica AtaiBeckley por US$ 2,8 bilhões, em uma aposta bilionária no mercado de tratamentos psicodélicos para depressão resistente. A transação pode chegar a US$ 3,8 bilhões se metas de desenvolvimento e aprovação regulatória forem cumpridas.
A oferta prevê pagamento de US$ 6,75 por ação, prêmio de 26% sobre o fechamento anterior. O desenho da operação mostra que a maior parte do risco ainda está no laboratório e nos órgãos reguladores: até US$ 1 bilhão do valor total depende do avanço do principal ativo da AtaiBeckley, o BPL-003.
O BPL-003 é um spray nasal baseado em 5-MeO-DMT, composto psicodélico sintético de ação rápida. O candidato está em fase 3 de estudos clínicos, etapa decisiva para medir eficácia e segurança antes de uma eventual aprovação. Os resultados são esperados para 2029, prazo que ajuda a dimensionar o horizonte da aposta: a Lilly compra agora um ativo que, se funcionar, ainda levará anos para chegar ao mercado.
Compra recoloca a Lilly na disputa por neurociência
A aquisição marca um retorno estratégico da Eli Lilly a uma área em que a companhia construiu parte de sua reputação com antidepressivos como Prozac e Cymbalta. Nos últimos anos, porém, a farmacêutica concentrou boa parte da atenção de investidores e médicos em medicamentos para diabetes e obesidade, como o Mounjaro.
Ao comprar a AtaiBeckley, a Lilly entra em um segmento que combina alta demanda médica, forte disputa científica e risco regulatório elevado. A depressão resistente — quando pacientes não respondem adequadamente a terapias convencionais — tornou-se um dos campos mais observados da psiquiatria, justamente por reunir necessidade clínica relevante e poucas alternativas de ação rápida.
A AtaiBeckley nasceu da combinação entre a Atai Life Sciences e a Beckley Psytech, reunindo pesquisas voltadas ao uso clínico de psicodélicos. O BPL-003 é tratado como um dos ativos mais avançados dessa nova geração de terapias. Estimativas de mercado projetam que o setor global de psicodélicos medicinais pode alcançar US$ 12 bilhões até 2034.
O que muda para o mercado e para o Brasil
Para o setor farmacêutico, a operação reforça a corrida das grandes companhias por moléculas capazes de abrir novas frentes em saúde mental. A compra também indica que os psicodélicos sintéticos deixaram de ser apenas uma aposta de biotecnologias menores e passaram a disputar espaço no planejamento de uma das maiores farmacêuticas do mundo.
No Brasil, o efeito imediato é indireto. A Lilly já tem presença relevante no país por meio de medicamentos como o Mounjaro, mas uma eventual chegada do BPL-003 dependeria primeiro do sucesso dos estudos clínicos, depois de aprovações regulatórias no exterior e, por fim, de avaliação sanitária local. Por envolver substância psicodélica controlada, qualquer uso clínico exigiria regras estritas de prescrição, aplicação e acompanhamento.
A conclusão da aquisição é esperada para o terceiro trimestre de 2026, após análise de autoridades regulatórias. Até lá, a tese da Lilly estará concentrada em um ponto: transformar um composto psicodélico experimental em tratamento aprovado para depressão resistente. O primeiro teste real dessa aposta virá com os dados clínicos previstos para 2029.











