O setor público consolidado fechou maio com déficit primário de R$ 56,131 bilhões, informou o Banco Central nesta terça-feira (30). O resultado marca uma virada forte em relação ao mesmo mês de 2025, quando União, Estados, municípios e estatais haviam registrado superávit de R$ 33,740 bilhões.
A piora veio acompanhada de nova alta da dívida. A dívida bruta do governo geral subiu para 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB), ante 80,2% em abril. Em valores nominais, passou de R$ 10,443 trilhões para R$ 10,622 trilhões em um mês. A dívida líquida do setor público avançou de 67,2% para 67,9% do PIB, alcançando R$ 8,898 trilhões.
O número também frustrou as projeções de mercado. A estimativa média apontava déficit de R$ 53,5 bilhões e dívida bruta de 80,7% do PIB. O dado divulgado pelo BC ficou pior nos dois indicadores: o rombo foi R$ 2,6 bilhões maior que o esperado, e a dívida bruta terminou 0,4 ponto percentual acima da previsão.
Juros pesam mais que o rombo primário
O resultado primário mede a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento de juros. Quando essa conta fecha no vermelho, o setor público precisa se financiar mais. Em maio, porém, a pressão mais pesada veio dos próprios juros da dívida: os juros nominais somaram R$ 107,547 bilhões no mês, quase o dobro do déficit primário.
Na prática, a fotografia fiscal ficou mais desfavorável por dois canais ao mesmo tempo. O governo gastou mais do que arrecadou antes dos juros, e a conta financeira da dívida continuou elevada. Segundo o BC, os juros responderam por 0,82 ponto percentual da alta da dívida líquida no mês, enquanto o déficit primário adicionou 0,43 ponto percentual. O crescimento nominal do PIB ajudou a amortecer parte do avanço, com efeito de 0,41 ponto percentual para baixo.
Por que o dado mexe com juros e crédito
A alta da dívida não afeta apenas a contabilidade do governo. Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser o prêmio exigido por investidores para financiar o setor público. Esse movimento pode pressionar os juros futuros, dificultar a queda da Selic e encarecer o crédito para empresas e famílias.
O ambiente já é apertado. A economia brasileira chega ao meio do ano com expectativa de crescimento moderado para 2026, em torno de 2% no Boletim Focus, e inflação projetada acima do centro da meta. Nesse quadro, um déficit acima do esperado reduz a margem para uma flexibilização mais rápida da política monetária.
Para consumidores, o efeito aparece de forma indireta, mas concreta: financiamentos imobiliários, crédito para veículos, empréstimos pessoais e capital de giro das empresas ficam mais sensíveis à permanência de juros altos. Para o setor produtivo, a combinação de dívida elevada e custo financeiro alto tende a adiar investimentos e reduzir a disposição para contratar ou expandir.
Comparação anual mostra deterioração
Na comparação com maio do ano passado, a mudança é expressiva. O setor público saiu de um superávit de R$ 33,7 bilhões para um déficit de R$ 56,1 bilhões, uma deterioração de R$ 89,9 bilhões. O contraste reforça a pressão sobre a meta fiscal em um ano em que o governo tenta sustentar receitas e conter despesas para estabilizar a trajetória da dívida.
O próximo teste virá nos dados dos meses seguintes. Se a arrecadação não ganhar força e as despesas continuarem pressionadas, a dívida tende a permanecer no centro da discussão econômica — com impacto direto nas expectativas para juros, inflação e crescimento.











