A Raízen fechou o exercício 2025/26 com prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões, resultado pressionado por uma baixa contábil bilionária em ativos e pelo avanço da dívida. No mesmo dia, a Energisa anunciou a entrada do Itaú Unibanco na Denerge Desenvolvimento Energético, holding do grupo no setor elétrico, em uma operação de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
Os dois anúncios expõem momentos opostos de grandes companhias brasileiras de energia. De um lado, a Raízen tenta reorganizar passivos depois de pedir recuperação extrajudicial e de registrar forte deterioração operacional. De outro, a Energisa reforça capital em uma estrutura que concentra participações no setor elétrico e mantém o controle da holding.
Baixa contábil pesa no resultado da Raízen
Do prejuízo total da Raízen, R$ 22,5 bilhões correspondem a provisões para perdas, conhecidas como impairment. A baixa não representa saída imediata de caixa, mas reduz o valor contábil de ativos e piora a leitura do mercado sobre a capacidade da companhia de atravessar a reestruturação.
O quarto trimestre também veio fraco. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 7,3 bilhões entre janeiro e março, com receita líquida de R$ 51,3 bilhões, queda de 11,1% em relação ao mesmo período do exercício anterior. O Ebitda trimestral somou R$ 507,8 milhões, recuo de 71,5% na comparação anual.
No ano, a receita operacional líquida caiu 11,5%, para R$ 225,8 bilhões. A dívida líquida chegou a R$ 58,2 bilhões, alta de 69,9% sobre os R$ 34,2 bilhões registrados no quarto trimestre de 2024/25. A combinação de menor geração operacional, passivo elevado e reavaliação de ativos aumenta a pressão sobre acionistas, credores e fornecedores ligados à cadeia de açúcar, etanol, combustíveis e energia renovável.
Reestruturação de R$ 65 bilhões entra no centro da crise
A Raízen protocolou pedido de recuperação extrajudicial em 12 de março, antes da divulgação do balanço, para reorganizar cerca de R$ 65 bilhões em passivos. A companhia informou anteriormente ter obtido apoio de 80,15% dos credores ao plano, percentual relevante para levar a proposta adiante, embora a etapa judicial ainda seja decisiva para a implementação.
A recuperação extrajudicial é uma tentativa de renegociar dívidas sem a amplitude de uma recuperação judicial tradicional. Na prática, o plano busca alongar prazos, reorganizar obrigações financeiras e preservar a operação enquanto a empresa tenta recompor geração de caixa. A teleconferência com investidores, marcada para esta quarta-feira (1º), deve concentrar perguntas sobre a origem das perdas, a venda ou reavaliação de ativos e o ritmo das negociações com credores.
Itaú entra na Denerge sem assumir o controle
Na Energisa, o movimento é de reforço de capital. O acordo com o Itaú Unibanco prevê a subscrição de ações preferenciais da Denerge Desenvolvimento Energético, holding que reúne participações do grupo em empresas do setor elétrico. O aporte de aproximadamente R$ 1,4 bilhão dará ao banco uma participação minoritária, sem mudança de controle.
A estrutura permite à Energisa captar recursos sem vender o comando da holding. Para o Itaú, a operação amplia a exposição a um setor intensivo em capital, com receitas reguladas e demanda constante por financiamento em distribuição, transmissão e geração distribuída.
A conclusão do negócio ainda depende de aprovações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e de reguladores setoriais. Se receber o aval, a Energisa efetiva a emissão das ações preferenciais da Denerge e incorpora o banco como sócio financeiro da holding.
Para o mercado, os próximos marcos são objetivos: a Raízen precisa avançar na homologação da recuperação extrajudicial e explicar como pretende reduzir a alavancagem; a Energisa aguarda as autorizações regulatórias para transformar o acordo com o Itaú em capital novo dentro da Denerge.










