A Ace Capital vê espaço para novas altas nas taxas das NTN-Bs, os títulos públicos atrelados ao IPCA, em meio a um cenário de deterioração fiscal que já levou o Tesouro Nacional a cancelar um leilão dos papéis. A avaliação é do diretor de investimentos da gestora, Fabricio Taschetto.
Segundo Taschetto, a necessidade de o Banco Central manter uma postura restritiva para atingir a meta de inflação — tida como de difícil cumprimento — pode empurrar ainda mais para cima os juros das NTN-Bs intermediárias. A gestora acompanha essa tese com uma posição “vendida” nos títulos públicos e “aplicada” nos juros nominais de curto prazo, apostando que não haverá alta da Selic ainda neste ano.
O movimento ocorre em um momento de forte abertura das curvas. A NTN-B com vencimento em 2029 se aproximou de 9% de juro real ao ano em negociações de mercado, um nível raramente observado fora de períodos de forte estresse fiscal. Na semana passada, o Tesouro cancelou o leilão dos papéis marcado para esta segunda-feira — decisão lida pelo mercado como recusa em validar o patamar de juros reais exigido pelos investidores.
A justificativa oficial para o cancelamento foi a necessidade de preservar a funcionalidade do mercado. Entre gestores, porém, a avaliação é que o Tesouro preferiu retirar a oferta a realizar uma emissão que serviria como referência indesejada para o custo da dívida pública.
Cancelamento provoca descompressão nos juros futuros
A decisão do Tesouro provocou forte descompressão de prêmios de risco no mercado local. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 caiu de 14,255% para 14,235%. O DI de janeiro de 2028 também recuava.
O movimento reflete uma sequência de deterioração da renda fixa doméstica desde a semana passada, quando o mercado reagiu mal à postura conservadora do Federal Reserve (Fed) e à comunicação do Copom nas decisões de juros. Para a Ace Capital, ainda que os juros reais já estejam em patamares historicamente elevados, o espaço para alta persiste.
Alta das taxas encarece dívida e pressiona fundos
O efeito direto de taxas maiores nas NTN-Bs aparece no custo de financiamento do setor público. Remunerações reais mais altas aumentam o encargo para novas emissões e para rolagens feitas em condições menos favoráveis, ampliando a pressão sobre o orçamento e reduzindo o espaço fiscal para outras despesas.
No mercado, a alta das taxas também altera preços. Títulos públicos já emitidos tendem a perder valor quando a taxa exigida sobe — movimento relevante para fundos e investidores que marcam esses ativos a mercado. O ganho contratado só é preservado integralmente para quem carrega o papel até o vencimento.
Os próximos sinais virão dos novos leilões do Tesouro e das atualizações de expectativas para o IPCA e a Selic. Se a percepção de flexibilidade nos gastos persistir, a exigência de prêmio nos títulos indexados à inflação tende a permanecer elevada.











