Álcool ou drogas foram detectados no organismo de 53% das vítimas de mortes violentas em quatro regiões metropolitanas brasileiras, segundo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) publicado em 25 de maio na revista científica Toxics. A pesquisa, coordenada pelo pesquisador Henrique Silva Bombana, analisou 3.577 casos coletados entre março de 2022 e junho de 2024 nos institutos médico-legais das regiões metropolitanas abrangidas — cujas identidades não foram divulgadas no material disponível. Quando o recorte é exclusivo de homicídios, o índice sobe para 67%: dois em cada três vítimas de assassinato tinham alguma substância psicoativa no organismo no momento da morte.
O perfil demográfico é igualmente expressivo: nove em cada dez vítimas eram do sexo masculino, e 56% tinham 30 anos ou mais. Financiada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) com R$ 5,2 milhões, a pesquisa preenche uma lacuna histórica — até então, o Brasil não dispunha de levantamento toxicológico padronizado em vítimas de violência fatal em escala metropolitana. Os autores ressaltam que a presença de substâncias configura fator de risco associado às mortes, não evidência de causalidade direta entre o consumo e a violência. O estudo, contudo, não inclui declarações diretas dos pesquisadores no material divulgado, o que limita a contextualização imediata dos achados.
O convênio entre o MJSP e a FMUSP foi assinado em março de 2021, com recursos exclusivos para pesquisas sobre mortes violentas e uso de drogas. A coleta, iniciada em março de 2022 e encerrada em junho de 2024, resultou na maior base toxicológica padronizada do tipo no país. A publicação na Toxics (MDPI) detalha a metodologia, que se baseia em necropsias realizadas pelos Institutos Médico-Legais — o que pode sub-representar mortes sem exame toxicológico, conforme os próprios autores reconhecem.
Contexto e lacunas: do Atlas da Violência à necessidade de dados nacionais
O Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), monitora sistematicamente as taxas de homicídio por 100 mil habitantes no Brasil, discriminadas por sexo — panorama que o estudo da USP agora complementa com a dimensão toxicológica. Dados do DataSUS já apontavam o álcool como um dos principais fatores de risco para óbitos evitáveis, mas faltava levantamento toxicológico padronizado em vítimas de violência fatal. A pesquisa, no entanto, cobre apenas quatro regiões metropolitanas, o que impede a extrapolação direta dos percentuais para o conjunto do território nacional. Especialistas ouvidos pelo PIRANOT destacam que a ausência de distinção pública entre álcool e drogas ilícitas nos resultados, bem como a falta de discriminação por categoria específica de morte violenta, limita a aplicação imediata dos achados em políticas públicas.
Questões metodológicas seguem abertas. O estudo não detalha os dados por tipo de substância detectada — sem distinção publicada entre álcool e drogas ilícitas — nem discrimina os resultados por categoria específica de morte violenta. A base depende de necropsias realizadas pelos IMLs, o que pode sub-representar mortes sem exame toxicológico. A avaliação por pesquisadores sem vínculo com o convênio firmado com o MJSP, condição para atestar a independência metodológica, ainda não foi tornada pública. O PIRANOT solicitou esclarecimentos adicionais à FMUSP, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Implicações para políticas de saúde e segurança
Os resultados reforçam, segundo a interpretação dos pesquisadores, a urgência de políticas integradas de prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas, com foco na população masculina adulta — perfil que concentra a quase totalidade das vítimas identificadas. Programas de redução de danos e acesso a tratamento poderiam impactar as taxas de violência letal, mas a pesquisa não estabelece essa relação como causal: a presença de substâncias é tratada estritamente como fator de risco associado. O investimento de R$ 5,2 milhões do MJSP sinaliza a prioridade do tema na agenda federal, mas a ausência de uma base nacional padronizada dificulta a comparação entre estados e regiões. Para mais informações sobre o impacto do consumo de substâncias na saúde pública, consulte o acervo do PIRANOT em nossa seção de Saúde.










