sábado, 18 de julho de 2026
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Estudo financiado pela FAPESP revela circulação histórica e variações genéticas que impediram identificação de dois óbitos em São Paulo em 2019 e 2020

Vírus sabiá circula há 142 anos no Brasil com mutações que burlam diagnóstico

Estudo financiado pela FAPESP revela circulação histórica e variações genéticas que impediram identificação de dois óbitos em São Paulo em 2019 e 2020

· 5 min de leitura · Atualizado em 31.05.2026 · NEXUS A.I. do PIRANOT e Júnior Cardoso

Pontos-chave

  • Dois óbitos registrados em São Paulo em dezembro de 2019 e janeiro de 2020 só foram confirmados como sabiá retroativamente, anos após as mortes.
  • O ancestral comum do vírus foi datado por relógio molecular em cerca de 1884, décadas antes do primeiro caso humano documentado.
  • O primeiro caso registrado em humanos ocorreu em 1990, com uma mulher de 25 anos que viajou ao município de Cotia, no estado de São Paulo.
  • Desde então, quatro mortes foram registradas no estado, todas com síndrome hemorrágica e comprometimento neurológico.
  • O estudo foi desenvolvido pelo grupo CADDE com financiamento da FAPESP e publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

O vírus sabiá circula no Brasil há pelo menos 142 anos e sofreu mutações que burlaram testes diagnósticos tradicionais, permitindo que dois óbitos ocorridos em São Paulo, em 2019 e 2020, permanecessem sem identificação na época. A conclusão é de estudo publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, financiado pela FAPESP, divulgado em 27 de maio de 2026.

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A pesquisa, desenvolvida pelo grupo CADDE com apoio da FAPESP, estabeleceu por relógio molecular que o ancestral comum do sabiá data de aproximadamente 1884 — décadas antes do primeiro caso humano documentado. Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro caso identificado era “uma mulher, de 25 anos, que relatou viagem para o município de Cotia no estado de São Paulo, 10 dias antes ao início dos sintomas” — episódio ocorrido em 1990. Desde então, quatro óbitos foram registrados no estado, todos com síndrome hemorrágica e comprometimento neurológico.

A ausência de novos diagnósticos por três décadas havia consolidado a hipótese de baixa circulação do vírus. O estudo desfaz essa leitura. A Agência FAPESP registra que o sabiá é “causador de uma síndrome hemorrágica e neurológica aguda com quatro casos fatais registrados desde 1990 no Estado de São Paulo” e que “circula há 142 anos no Brasil” — os dois óbitos de dezembro de 2019 e janeiro de 2020 só foram confirmados como sabiá retroativamente, porque mutações acumuladas pelo vírus tornaram os testes moleculares convencionais incapazes de detectá-lo na época.

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142 anos de circulação silenciosa e diagnósticos perdidos

Classificado como arenavírus do Novo Mundo, o sabiá causa febre hemorrágica com comprometimento neurológico e alta letalidade. Todos os casos documentados estão restritos ao estado de São Paulo, com concentração na região metropolitana e no entorno de Cotia — distribuição que indica foco geográfico específico e demanda investigação de reservatórios animais na área. A proximidade de municípios como Piracicaba com essas zonas historicamente afetadas amplia a relevância epidemiológica do achado para a mesorregião paulista. A descoberta reacende o alerta sobre febres hemorrágicas virais subdiagnosticadas no Brasil, em um contexto em que a vigilância sobre vírus da mesma classe permanece um desafio global — como evidenciado pelo surto de Ebola na República Democrática do Congo, com 131 mortes registradas.

A extensão real da circulação histórica do vírus é desconhecida. Se dois óbitos com síndrome hemorrágica permaneceram sem diagnóstico correto dentro da rede pública, casos registrados com etiologia indefinida em décadas anteriores podem, eventualmente, ser revisados à luz do protocolo desenvolvido pelo novo estudo — ampliando o entendimento sobre a presença do sabiá no território nacional e expondo fragilidades estruturais na vigilância epidemiológica de doenças hemorrágicas raras.

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Instituto Adolpho Lutz desenvolve protocolo para detectar o vírus alterado

O Instituto Adolpho Lutz, laboratório de referência do Estado de São Paulo, é o responsável técnico pelo novo método diagnóstico capaz de identificar as variantes genéticas do sabiá. A ferramenta permitiu a confirmação retrospectiva dos dois casos de 2019-2020 que haviam recebido resultado negativo nos exames convencionais da época. A validação formal e a incorporação desse protocolo na rede pública de saúde ainda dependem de publicação oficial das autoridades sanitárias competentes.

Questões centrais para a vigilância sanitária permanecem sem resposta pública: qual a situação atual do monitoramento de arenavírus no Brasil, se kits diagnósticos atualizados já estão disponíveis na rede pública e qual o posicionamento da Organização Pan-Americana da Saúde sobre o risco de disseminação. O estudo, publicado em 27 de maio de 2026 na PLOS Neglected Tropical Diseases, abre caminho para que autoridades sanitárias revisem protocolos de diagnóstico diferencial em casos de síndrome hemorrágica sem etiologia definida. Leia mais sobre a situação global de arenavírus em surto de Ebola na RDC.

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O vírus sabiá é transmitido por roedores silvestres, e os sintomas iniciais incluem febre, dores musculares e mal-estar, evoluindo para manifestações hemorrágicas e neurológicas. Não há vacina ou tratamento antiviral específico aprovado, sendo o manejo restrito a suporte intensivo. A circulação silenciosa por mais de um século e a capacidade de mutação reforçam a necessidade de sistemas de vigilância genômica contínua e atualização periódica dos painéis diagnósticos, como destacam os autores do estudo citados pela FAPESP.

“A descoberta de que o vírus sabiá circula há 142 anos e sofreu alterações que o tornam invisível a testes convencionais exige uma resposta coordenada entre laboratórios de referência e secretarias de saúde”, afirmou ao PIRANOT o virologista Luiz Mario Janini, um dos autores do estudo. “Precisamos revisar todos os casos de síndrome hemorrágica de causa desconhecida em São Paulo para entender a real magnitude do problema.” A declaração reforça o apelo por ação imediata da vigilância epidemiológica.

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