quarta-feira, julho 8
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Clovis Vaz
Clovis Vaz

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Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal...

“A derrota da Seleção não cabe na súmula”

· 4 min de leitura

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

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Há uma tendência curiosa no futebol brasileiro. Toda vez que a Seleção perde, a discussão começa pelo fim da história. Quem escalou mal? Quem falhou? Quem deveria ter entrado? É uma forma confortável de conversar sobre futebol porque dispensa a obrigação de discutir o que realmente interessa.

A eliminação para a Noruega não começou quando o árbitro apitou o jogo. Ela começou muito antes, quando o futebol brasileiro passou a acreditar que administrar uma marca era mais importante do que construir uma seleção.

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Não é uma crítica ao marketing. Futebol sempre movimentou dinheiro e continuará movimentando. O problema aparece quando o negócio deixa de servir ao esporte e o esporte passa a servir ao negócio. Basta olhar em volta. As casas de apostas se tornaram protagonistas do campeonato brasileiro. Financiam clubes, ocupam transmissões, dão nome a competições e transformaram o torcedor em cliente de um mercado que vive da imprevisibilidade do jogo. Não há ingenuidade nisso. Há um projeto. O curioso é que, enquanto o mercado sabe exatamente onde quer chegar, a CBF parece não saber que futebol pretende oferecer.

Talvez seja por isso que a contratação de Carlo Ancelotti tenha provocado tanto encantamento. Não era apenas a chegada de um grande treinador. Era a esperança de que alguém de fora resolvesse aquilo que ninguém aqui demonstrou capacidade de resolver. A CBF importou um técnico como quem importa uma solução. Só que identidade não desembarca em aeroporto. Constrói-se. E Ancelotti, até agora, parece ter entendido mais rapidamente a burocracia do cargo do que a urgência da missão. Sua Seleção joga um futebol protocolar, previsível, sem qualquer sinal de ruptura. Não foi contratado para dar continuidade ao que existia. Foi contratado justamente porque o que existia havia fracassado.

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Neymar é, talvez, o personagem que melhor representa esse período do futebol brasileiro. Não porque tenha jogado pouco. O problema é que um talento desse tamanho deveria ter deixado um legado maior do que números. Em vez de estabelecer um padrão de comportamento para a geração que veio depois, muitas vezes ajudou a naturalizar o contrário. A infantilidade antes da cobrança de pênalti contra a Noruega não explica uma eliminação. Mas ajuda a explicar uma época. Uma época em que a camisa da Seleção parece exigir menos de seus principais jogadores do que exigia de gerações anteriores.

É justamente isso que mais preocupa. O futebol brasileiro perdeu o hábito da autocrítica. Depois de cada fracasso, muda-se o discurso, muda-se o treinador, muda-se meia dúzia de jogadores. O que nunca muda é a estrutura que produziu o fracasso. A CBF segue intocável. Os dirigentes continuam os mesmos. As justificativas também. A sensação é de que o futebol brasileiro já não trata a derrota como um problema a ser resolvido, mas como um contratempo a ser administrado.

É por isso que desconfio de toda explicação que termina em um nome. Nem Ancelotti explica sozinho o fracasso da Seleção. Nem Neymar. Muito menos um jogador que perdeu um gol ou um zagueiro que falhou. O futebol brasileiro atravessa uma crise mais profunda. Há dinheiro, há audiência, há exposição internacional, há jogadores espalhados pelos maiores clubes do mundo. O que parece faltar é algo infinitamente menos sofisticado: uma ideia.

A derrota para a Noruega ficará registrada nas estatísticas. Talvez nem seja lembrada daqui a alguns anos. O que deveria preocupar é outra coisa. Faz tempo que a Seleção Brasileira deixou de perder apenas partidas. Aos poucos, foi perdendo uma ideia de futebol. A história ainda sustenta a camisa. Mas história nenhuma sustenta um time para sempre.

Clovis Vaz
Empresário de comunicação e consultor político

Clovis Vaz
Sobre o colunista

Clovis Vaz

Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal de Governo e de Saúde em Piracicaba, além de chefe de gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. Escreve às quartas-feiras no PIRANOT sobre bastidores da política e gestão pública.

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