A indústria de transformação paulista chega a 2026 como o principal ponto de atenção da economia do Estado, na avaliação da Fiesp. Depois de crescer 3,9% em 2024, o setor recuou 0,2% em 2025 e registrou o pior primeiro semestre da série acompanhada pela federação.
O diagnóstico combina dois vetores de pressão: crédito mais caro dentro do país e perda de fôlego nas vendas externas. A entidade afirma que o juro real subiu de 7,2% em janeiro para 10,6% em dezembro de 2025, movimento que encarece financiamento, compra de máquinas, estoques e projetos de expansão industrial.
Para 2026, a Fiesp projeta queda de 4,9% nas vendas da indústria de transformação. O número contrasta com a previsão de crescimento de 1,9% para o Produto Interno Bruto, sinal de que a federação não vê uma quebra generalizada da atividade econômica, mas identifica a transformação industrial como o elo mais vulnerável do ciclo.
Crédito caro trava a retomada após 2024
A virada em dois anos ajuda a dimensionar a perda de ritmo. Em 2024, a indústria de transformação avançou 3,9%, impulsionada pela recomposição de segmentos ligados a bens de capital. No ano seguinte, o setor passou para queda de 0,2%, já sob juros reais mais altos e menor disposição de empresas para investir.
Na prática, o encarecimento do crédito atinge justamente as decisões que sustentam a indústria de maior valor agregado. Empresas que dependem de capital intensivo adiam compras de equipamentos, reduzem estoques e revisam planos de produção quando o custo financeiro sobe. Esse efeito tende a aparecer com mais força em cadeias metalmecânicas, autopeças, máquinas e fornecedores de bens de capital.
A pressão externa completa o quadro. A Fiesp aponta queda de 8,7% nas exportações para os Estados Unidos no segundo semestre de 2025, em um ambiente afetado por tarifas comerciais. Para empresas com maior exposição ao mercado norte-americano, a combinação de demanda externa menor e financiamento doméstico caro reduz margem para reação rápida.
Transformação pesa mais que o desempenho geral da economia
O ponto central da leitura da federação é a diferença entre o desempenho agregado da economia e a situação da indústria de transformação. Enquanto a projeção para o PIB ainda indica expansão de 1,9% em 2026, a estimativa para as vendas do setor aponta retração de 4,9%.
Esse descolamento importa porque a indústria de transformação concentra cadeias longas de fornecedores, empregos qualificados e demanda por serviços especializados. Quando o setor perde tração, o efeito não fica restrito às fábricas: alcança transporte, manutenção, engenharia, tecnologia, crédito empresarial e arrecadação municipal em polos industriais.
No interior paulista, a leitura tende a pesar sobre regiões dependentes de investimento industrial, como polos de máquinas, equipamentos e componentes. A deterioração das vendas não significa paralisação generalizada, mas reduz o espaço para novos aportes e aumenta a seletividade de projetos em 2026.
O quadro que a Fiesp coloca para o setor é objetivo: a indústria de transformação saiu de alta de 3,9% em 2024 para queda de 0,2% em 2025, enfrentou juro real de 10,6% no fim do ano e entra em 2026 com previsão de recuo de 4,9% nas vendas. A reação dependerá de crédito menos restritivo e de recuperação das encomendas externas, especialmente para empresas expostas aos Estados Unidos.











