A 90 dias do primeiro turno da eleição presidencial de 2026, Lula entra no período de restrições à propaganda institucional em posição mais confortável que a oposição. O presidente combina aprovação na faixa de 45% a 50%, presença reforçada nos maiores colégios eleitorais e um adversário ainda sem unidade em torno de uma candidatura.
O cenário favorece o Planalto por dois caminhos simultâneos. De um lado, o governo acelerou a entrega de medidas antes do defeso eleitoral, com 101 anúncios de políticas públicas no ciclo pré-eleitoral. De outro, a direita chega dividida entre nomes competitivos, sem acordo formal entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, para concentrar o voto anti-Lula.
O peso dessa divisão aumenta porque os oito maiores colégios eleitorais concentram cerca de 70% do eleitorado nacional. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de outros cinco estados de grande peso, viraram prioridade na distribuição de agendas, anúncios e acenos políticos do governo antes do início das limitações impostas pela legislação eleitoral.
Planalto corre antes do defeso e ocupa terreno nos estados decisivos
A arrancada final do governo antes do silêncio institucional incluiu medidas de forte apelo econômico. Em 3 de julho, o Planalto formalizou um pacote de R$ 30 bilhões em crédito para financiamento de veículos novos, parte de uma estratégia mais ampla para associar a reta pré-eleitoral a consumo, renda e entrega administrativa.
O defeso eleitoral começa neste domingo (5) e restringe a propaganda institucional do governo federal. Na prática, a regra reduz a capacidade do Planalto de transformar novos anúncios em vitrine política nos próximos meses. Por isso, a concentração de medidas antes da virada do calendário ganha relevância: o governo tenta chegar à fase decisiva com a agenda já colocada na rua.
A oposição, por sua vez, não conseguiu converter os pontos de desgaste do governo em vantagem organizada. No Congresso, parlamentares ainda avaliam derrubar um veto de Lula sobre repasses a municípios endividados, uma pauta com potencial de atrito com bancadas aliadas. No campo econômico, o tarifaço imposto por Donald Trump a produtos brasileiros permanece como risco para o Planalto, mas também expôs uma fragilidade do bolsonarismo.
Flávio Bolsonaro perde espaço ao repetir pauta de Lula e se desgastar com Trump
Flávio Bolsonaro acumulou dois movimentos problemáticos em uma semana decisiva. Em 2 de julho, o senador pediu ao governo americano o adiamento de tarifas sobre produtos brasileiros, iniciativa rechaçada publicamente por Lula. O presidente explorou o episódio para enquadrar a família Bolsonaro como responsável por um problema externo com impacto direto sobre a economia nacional.
O segundo tropeço veio na área de segurança pública, uma das bandeiras mais sensíveis para o eleitorado de direita. Lula e Flávio defenderam a construção de presídios de segurança máxima, o que reduziu a capacidade do senador de apresentar a proposta como marca própria. Quando governo e oposição disputam a mesma resposta para o mesmo problema, o incumbente costuma largar com vantagem: tem a máquina, o orçamento e a possibilidade de executar.
A dificuldade de diferenciação se soma à falta de composição no campo conservador. Tarcísio aparece como alternativa eleitoral com força própria, especialmente por comandar o maior colégio eleitoral do país, mas não formalizou candidatura presidencial nem aliança com Flávio. Sem uma costura nacional, o voto de oposição permanece pulverizado justamente no momento em que a campanha entra na fase de definição de palanques e prioridades.
Direita tem janela curta para unificar nome e agenda
O quadro não elimina riscos para Lula. A pressão das tarifas americanas pode afetar setores produtivos e criar ruído econômico no segundo semestre. A eventual derrubada de vetos no Congresso também pode impor derrotas ao governo e reabrir disputas com prefeitos e bancadas regionais. Mas, por ora, esses focos de desgaste não se transformaram em uma narrativa eleitoral unificada contra o presidente.
Há ainda temas periféricos que alimentam o ambiente político, mas não mudaram o eixo da disputa. O caso envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, aumentou a sensação de instabilidade no sistema financeiro, sem produzir impacto mensurável nas intenções de voto presidencial. A oposição também não conseguiu ligar o episódio diretamente ao governo nem convertê-lo em bandeira de campanha.
Com o defeso em vigor, a vantagem operacional do Planalto diminui, mas a oposição passa a correr contra o relógio. Nos próximos 90 dias, a direita precisa escolher se concentra forças em um nome, define uma agenda própria e transforma os desgastes do governo em voto. Até aqui, Lula chega à reta decisiva à frente, enquanto seus adversários ainda disputam entre si quem terá condições de enfrentá-lo.










