quarta-feira, junho 10
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Clovis Vaz
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Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal...

O homem que falava javanês e os especialistas de internet

· 3 min de leitura · Atualizado em 09.06.2026

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

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Em 1911, Lima Barreto publicou um conto que atravessou mais de um século sem perder a atualidade. Em O Homem que Sabia Javanês, acompanhamos a história de Castelo, um sujeito desempregado que, por acaso, encontra um anúncio procurando alguém que dominasse a língua javanesa. Sem conhecer uma única palavra do idioma, ele decide fingir que é especialista no assunto. A partir daí, constrói uma reputação baseada apenas na aparência de conhecimento, acumulando prestígio, influência e oportunidades.

A genialidade da obra está no fato de que Lima Barreto não critica apenas o impostor. Seu alvo principal é uma sociedade disposta a acreditar sem questionar. O personagem prospera porque ninguém verifica suas credenciais. Bastam palavras difíceis, postura confiante e a impressão de exclusividade para que todos aceitem sua suposta autoridade. O conto se tornou uma sátira da falsa erudição e da valorização excessiva das aparências.

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Mais de cem anos depois, a internet criou um ambiente onde essa crítica continua surpreendentemente atual. Não porque todos os coaches sejam charlatães, como muitos gostam de afirmar, mas porque as redes sociais facilitaram o surgimento de personagens que reproduzem exatamente o mecanismo descrito por Lima Barreto.

Existem profissionais sérios no mercado de desenvolvimento pessoal, liderança, vendas e gestão. Muitos possuem formação, experiência prática e resultados comprovados. O problema está em outro lugar: na multiplicação de indivíduos que transformam discursos motivacionais em credenciais automáticas de autoridade. Pessoas que se apresentam como especialistas em áreas complexas sem trajetória consistente, sem experiência verificável e, muitas vezes, sem qualquer conhecimento aprofundado sobre aquilo que ensinam.

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O paralelo com Castelo é inevitável. Em vez do javanês, surgem fórmulas milagrosas para enriquecer, promessas de sucesso garantido, métodos infalíveis para liderar equipes ou receitas universais para resolver problemas pessoais. O conteúdo pode mudar, mas a lógica permanece a mesma: construir uma imagem de especialista antes mesmo de construir a especialidade.

A diferença é que, no início do século XX, o personagem de Lima Barreto precisava convencer algumas dezenas de pessoas. Hoje, um vídeo pode alcançar milhões em poucas horas. A tecnologia ampliou enormemente o alcance da informação, mas também ampliou a velocidade com que falsas autoridades podem ser criadas.

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Talvez a lição mais importante do conto não seja sobre os impostores, mas sobre o público. Castelo só teve sucesso porque encontrou uma sociedade fascinada por títulos, aparências e discursos sofisticados. Da mesma forma, os falsos especialistas da era digital prosperam quando seguidores substituem análise por entusiasmo e admiração por verificação.

Lima Barreto escreveu uma crítica à cultura da aparência em uma República ainda jovem. Sem imaginar, acabou produzindo também uma reflexão valiosa para o século XXI. Em tempos de redes sociais, algoritmos e influenciadores, continua atual a pergunta que seu conto nos faz: estamos avaliando as pessoas pelo que realmente sabem ou apenas pela forma como conseguem parecer que sabem?

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A resposta talvez explique por que O Homem que Sabia Javanês continua tão contemporâneo. Mudaram os meios, mudaram as plataformas, mudaram os personagens. Mas a tentação de confundir confiança com competência permanece exatamente a mesma.

Clovis Vaz
Empresário de comunicação e consultor político

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Clovis Vaz
Sobre o colunista

Clovis Vaz

Consultor político e empresário com mais de 35 anos de atuação em campanhas eleitorais e assessoria institucional. Foi secretário municipal de Governo e de Saúde em Piracicaba, além de chefe de gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo. Escreve às quartas-feiras no PIRANOT sobre bastidores da política e gestão pública.

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