O plano de recuperação extrajudicial da Raízen — empresa piracicabana que concentra as operações de biocombustíveis e distribuição de combustíveis da parceria Cosan-Shell — chegou ao tribunal nesta semana com 75,45% de adesão dos credores. Agora, uma assembleia marcada para hoje (8), às 13h, pode tornar esse acordo definitivo e irrevogável sem necessidade de novos trâmites.
Protocolo e o quórum que travou o calendário
Na quinta-feira (5), a Raízen protocolou formalmente o plano na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O documento reuniu a adesão de bancos, debenturistas locais e bondholders internacionais, chegando a 75,45% do total de credores. A assembleia da 4ª emissão de debentures, realizada em 3 de junho, aprovou a entrada no plano por 65,69% dos títulos em circulação — quórum suficiente para deliberação.
Os debenturistas das 2ª, 3ª e 4ª emissões aprovaram a adesão de forma unânime. Com isso, a empresa ultrapassou o mínimo exigido e pôde protocolar o plano — encerrando a fase de captação de adesões que durou meses.
Assembleia de hoje define o ponto sem volta
A reabertura das assembleias nesta segunda-feira (8), às 13h, é o evento mais crítico do processo. A regra é simples: se os debenturistas reunidos não rejeitarem o plano — e se a Raízen não apresentar uma versão materialmente diferente à Justiça — a adesão já conquistada se torna irrevogável e irretratável de forma automática, sem precisar de novas formalidades.
Ou seja: se a assembleia não atingir quórum, ou se não houver votos contrários suficientes, o acordo simplesmente trava em definitivo. A Raízen não precisaria voltar ao tribunal para pedir homologação em nova rodada.
Shell entra com R$ 3,5 bi; família Ometto pode somar mais R$ 500 mi
O plano prevê uma injeção de capital de R$ 3,5 bilhões pela Shell, sócia de 44% da Raízen, a R$ 0,25 por ação. Em paralelo, a Aguassanta Participações — holding da família Rubens Ometto, que controla a Cosan e, por consequência, a Raízen — pode aportar até R$ 500 milhões adicionais, embora esse segundo aporte ainda não esteja formalmente comprometido.
45% da dívida vira ação; empresa se divide em duas
A estrutura do plano transforma parte expressiva do passivo em participação acionária: 45% da dívida reestruturada se converte em ações da companhia. Os outros 55% são refinanciados em novos instrumentos — 17,6% alocados na futura Raízen Energia (etanol de segunda geração e operações na Argentina) e 37,4% na Raízen Combustíveis (distribuição no Brasil).
A cisão em duas empresas independentes está no centro da reestruturação. A divisão separa o negócio mais maduro — a rede de postos e distribuição — do braço que concentrou os investimentos mais arriscados, como a aposta em etanol avançado que pesou no balanço desde 2023.
Próximos passos: PGFN e prazo até março de 2027
Dois pontos ainda pendentes podem afetar o cronograma. O primeiro é a aprovação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), que precisa endossar o tratamento dado às dívidas fiscais incluídas no plano. O segundo é o prazo de implementação: o acordo precisa estar operacional até 31 de março de 2027.
A Raízen acumulou o endividamento de R$ 64,7 bilhões financiando uma expansão agressiva — que incluiu a construção de dez usinas de etanol de segunda geração — em um período de juros altos e preços de commodities voláteis. O processo de recuperação extrajudicial foi aberto em março de 2026, após o vencimento automático de uma emissão de debentures.










