A crise da Raízen reacendeu em Piracicaba uma pergunta que circula desde a tragédia aérea de 2021: Rubens Ometto teria se afastado da companhia após a morte do irmão, Celso Silveira Mello Filho, e voltado ao centro do comando apenas quando a dívida explodiu? A linha do tempo pública não sustenta exatamente essa leitura. Nos documentos públicos que o PIRANOT consultou, Ometto não desapareceu formalmente da governança da Raízen. O que mudou agora é que credores financeiros, incluindo bancos, passaram a pressionar para reduzir seu poder na presidência do conselho da empresa.
A diferença é essencial. Não há evidência pública de que o acidente tenha provocado a crise da Raízen, nem de que Ometto tenha deixado oficialmente o comando depois da tragédia. O que existe, documentado em comunicados, atas e reportagens de mercado, é uma sequência em que o empresário continuou como figura central da Cosan e da Raízen, enquanto a companhia acumulava dívida, fazia apostas de expansão e agora negocia uma recuperação extrajudicial de cerca de R$ 65 bilhões.
Em resumo:
- Celso Silveira Mello Filho, irmão de Rubens Ometto e acionista da Cosan, morreu em acidente aéreo em Piracicaba em 2021.
- Não há evidência pública de que a tragédia tenha causado a crise financeira da Raízen.
- Ometto seguiu citado em documentos e reportagens como presidente do conselho e figura central da governança.
- A pressão atual vem dos credores, que querem mais controle sobre a Raízen após a conversão de dívida em ações.
- Plano em discussão pode tirar Ometto do centro decisório da companhia ligada à história empresarial de Piracicaba.
Linha do tempo documentada
O que sustenta esta análise:
- 14 de setembro de 2021: G1, CNN Brasil e Brazil Journal registraram a morte de Celso Silveira Mello Filho, irmão mais velho de Rubens Ometto, em queda de avião em Piracicaba. As mesmas reportagens identificaram Celso como acionista da Cosan/Raízen e não como executivo operacional da Raízen naquele momento.
- 2021: A cobertura da tragédia já citava Rubens Ometto como presidente do conselho da Cosan/Raízen. Não há, nas fontes públicas consultadas, comunicado da companhia informando saída formal de Ometto da governança após o acidente.
- 2022: Reportagens de perfil empresarial, como a Forbes, continuaram apresentando Ometto como fundador, líder e presidente do conselho do Grupo Cosan, controlador brasileiro ligado à Raízen.
- 2023: Ata da Raízen registrada na CVM cita Rubens Ometto como presidente da mesa e do Conselho de Administração, reforçando que ele permanecia formalmente no centro da governança.
- 2024: Reportagens sobre a troca de executivos no Grupo Cosan e na Raízen apontaram dança de cadeiras no comando executivo, mas não uma saída de Ometto da presidência dos conselhos.
- Março de 2026: A Raízen entrou em recuperação extrajudicial para reorganizar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. A crise foi atribuída publicamente a fatores financeiros e operacionais, como expansão acelerada, juros altos, pressão na Argentina, investimentos pesados e queda de resultados.
- Abril e maio de 2026: Bloomberg Línea, Valor/Pipeline, InvestNews e outros veículos de mercado passaram a noticiar que credores financeiros, incluindo bancos e detentores de títulos, pressionavam pela substituição de Ometto na presidência do conselho ou por redução de seu poder na governança.
- 3 e 8 de junho de 2026: O plano atualizado passou por assembleias de credores em 3 de junho e depende de ratificação em 8 de junho. O desenho divulgado prevê mais poder aos credores na governança, incluindo indicação de membros do conselho.
Essa linha do tempo mostra dois fatos ao mesmo tempo: a tragédia familiar de 2021 é real e relevante para a memória empresarial de Piracicaba, mas o nexo causal com a crise financeira da Raízen não aparece nos documentos públicos consultados. Já a pressão atual dos credores contra a permanência de Ometto no centro do comando está ligada diretamente à recuperação extrajudicial e à conversão de dívida em poder societário.
2021: a tragédia que marcou a família Ometto em Piracicaba
Em 14 de setembro de 2021, Celso Silveira Mello Filho morreu na queda de um avião em Piracicaba. Também morreram a esposa, Maria Luiza Meneghel, os três filhos do casal, o piloto e o copiloto. Celso era irmão mais velho de Rubens Ometto e acionista da Cosan, grupo que está na origem da Raízen.
Reportagens da época registraram que Celso tinha trajetória empresarial própria, ligada à agropecuária, à educação, ao XV de Piracicaba e a negócios familiares. O Brazil Journal relatou que Celso e Rubens começaram juntos nos negócios, compraram usinas e depois seguiram caminhos diferentes. O G1 informou que Celso já havia participado da implantação de projetos na Usina Costa Pinto e exercia cargos em empresas próprias.
A tragédia teve impacto humano e simbólico evidente para a família e para Piracicaba. Mas, do ponto de vista empresarial, as fontes públicas disponíveis não mostram Celso como executivo operacional da Raízen no período imediatamente anterior ao acidente. Também não há comunicado da companhia atribuindo mudança de comando ao episódio.
O que Ometto disse publicamente sobre o irmão
Após a tragédia, há poucos registros públicos de Rubens Ometto falando diretamente sobre a morte do irmão, da cunhada e dos sobrinhos. No dia do acidente, ele declarou ao Brazil Journal que Celso era “brincalhão, expansivo e muito querido em Piracicaba”. Também disse que, embora tivesse nascido na usina, Celso era “muito mais do campo e da terra”.
No enterro, segundo o SBT News, a família preferiu não conceder entrevistas. Desde então, a presença pública de Ometto aparece mais ligada aos negócios da Cosan e da Raízen do que a manifestações sobre a perda familiar. Esse silêncio público posterior não permite concluir como o empresário elaborou a tragédia. Ele apenas mostra que, nos registros disponíveis, o acidente ficou fora do centro de sua comunicação empresarial, enquanto sua presença formal na governança continuou.
Ometto não saiu formalmente do centro da governança
Depois do acidente, Rubens Ometto continuou aparecendo publicamente como presidente do conselho e controlador da Cosan, além de figura central na Raízen. Em 2021, veículos já o citavam como presidente do conselho. Em 2022, a Forbes o tratava como fundador, líder e presidente do conselho do Grupo Cosan. Em 2023, ata da Raízen na CVM aparece com Ometto como presidente da mesa e do conselho.
Em 2024, houve dança de cadeiras no grupo, com mudanças executivas na Cosan e na Raízen. Mesmo assim, as reportagens de mercado seguiam apontando Ometto como presidente dos conselhos. Ou seja: se houve menor exposição pública, delegação de tarefas ou recuo no dia a dia operacional, isso não equivale a uma saída formal do comando de governança.
A leitura mais segura é que Ometto não voltou agora porque nunca deixou oficialmente o centro da estrutura. Ele voltou ao centro do noticiário porque a crise de dívida transformou sua permanência na presidência do conselho em ponto de tensão com credores.
2026: credores querem menos Ometto no comando
A pressão atual não nasce da tragédia familiar, mas da recuperação extrajudicial. A Raízen tenta reorganizar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas e propôs converter parte do passivo em ações, criar novos títulos, receber aporte da Shell e redesenhar sua governança. Nesse novo arranjo, credores financeiros, incluindo bancos e detentores de títulos, não querem apenas receber no futuro; querem ter influência direta sobre a empresa.
Reportagens de mercado indicam que credores pediram a saída de Ometto da presidência do conselho da Raízen. A lógica é financeira e de governança: se os credores aceitam converter dívida em participação acionária e podem se tornar maioria econômica no novo desenho, eles passam a defender mais controle sobre o conselho e menos poder concentrado no antigo controlador.
O plano divulgado nesta quarta-feira (3) reforça essa leitura. A proposta prevê um conselho com sete membros após o fechamento da operação, sendo quatro indicados por credores apoiadores, incluindo a presidência do colegiado, segundo informações de mercado. Esse desenho, se confirmado, desloca o centro de poder da Cosan/Ometto para os credores.
O conflito não é pessoal: é controle sobre quem paga a conta
É tentador resumir a disputa como uma briga para tirar Ometto da Raízen. Mas o conflito é mais amplo. Os credores querem garantias de que a empresa não repetirá o modelo de decisões que levou a endividamento elevado, expansão agressiva e pressão de caixa. A saída ou redução de poder de Ometto seria, nesse contexto, uma consequência da nova correlação de forças.
Também há um componente de proporcionalidade. Ometto, por meio da Aguassanta, poderia aportar cerca de R$ 500 milhões. A Shell se comprometeu com R$ 3,5 bilhões. Já os credores assumiriam parte relevante do risco ao transformar dívida em ações e novos títulos. Para eles, manter a presidência do conselho nas mãos do antigo controlador seria desproporcional diante do peso econômico que passariam a carregar.
Por isso, a frase mais precisa não é que “os bancos querem Ometto longe” da Raízen. A formulação mais segura é: credores financeiros, incluindo bancos, pressionam para que Ometto deixe a presidência do conselho ou tenha menos poder na governança da empresa reestruturada.
O que explica a crise documentada da Raízen
As causas públicas da crise da Raízen estão ligadas a fatores financeiros e operacionais. A própria companhia e analistas de mercado apontam expansão acelerada, juros elevados no Brasil, deterioração macroeconômica na Argentina, investimentos pesados em novas frentes, pressão climática, queda de resultados e aumento do custo da dívida.
Comunidade PIRANOT
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Esse conjunto é suficiente para explicar por que a empresa chegou à recuperação extrajudicial. A tragédia de 2021 faz parte da história recente da família Ometto em Piracicaba, mas não aparece como causa documentada da crise empresarial. A diferença entre memória familiar e nexo financeiro precisa ser preservada.
Agora, a data-chave é 8 de junho
A próxima etapa decisiva da Raízen é a ratificação do plano pelos credores em 8 de junho. Até lá, o futuro de Ometto no conselho, a entrada mais forte da Shell, a conversão de dívida em ações e o poder dos credores seguem como peças de uma mesma negociação.
Para Piracicaba, o caso tem peso especial. A cidade acompanha não apenas a crise de uma grande companhia, mas uma possível virada no maior império empresarial com raízes locais. Ometto não saiu formalmente da Raízen depois da tragédia de 2021. Mas, em 2026, pode ser a primeira vez que ele deixa de ter o centro do comando por pressão direta de quem financia a sobrevivência da empresa.
Este texto tem caráter jornalístico e não constitui recomendação de investimento.















