O Banco BV encerrou o primeiro trimestre de 2026 com um marco histórico: a carteira de crédito total ultrapassou R$ 100 bilhões pela primeira vez. O lucro líquido recorrente, porém, ficou praticamente estagnado em R$ 481 milhões, com leve alta de 0,2% sobre o mesmo período de 2025, conforme balanço divulgado pela instituição.
A combinação de carteira recorde com lucro estável revela a estratégia conservadora adotada pelo banco. Apesar do crescimento de 9,3% no volume de crédito em 12 meses, a instituição reforçou a seletividade na originação para proteger o balanço contra calotes.
O ambiente de crédito ainda é desafiador. A inadimplência acima de 90 dias atingiu 5,4% no trimestre, ligeiramente acima dos 5,3% registrados no fim de 2025, conforme dados do release de resultados do BV. As despesas com provisão para devedores duvidosos (PDD) somaram R$ 1,1 bilhão, alta de 15,3% em um ano.
Inadimplência elevada freia apetite por risco
O presidente do BV, Gabriel Ferreira, foi direto ao ponto: “A gente está esperando a inadimplência cair para voltar a acelerar o crescimento”, afirmou em entrevista ao Valor Econômico. A declaração resume a postura do banco, que sacrifica expansão de curto prazo em nome da qualidade dos ativos.
A provisão para devedores duvidosos subiu 19,1% no período, para R$ 1,7 bilhão, pressionada especialmente pelo segmento de veículos. “Seguimos com originação controlada, especialmente nas linhas de varejo, enquanto a inadimplência não cede”, reforçou o diretor financeiro do BV, em comunicado oficial.
Apesar da cautela, a carteira seguiu crescendo em modalidades com garantias mais sólidas, como crédito consignado e financiamento de veículos. A qualidade dos novos empréstimos é considerada satisfatória, mas as safras antigas ainda pesam nos indicadores de atraso.
Margem financeira avança, mas provisões limitam resultado
A margem financeira bruta alcançou R$ 2,3 bilhões no primeiro trimestre, crescimento de 14,8% na comparação anual, refletindo o maior volume de crédito e a gestão ativa de passivos. O índice de eficiência operacional melhorou para 41,2%, ante 42,7% um ano antes, indicando controle de despesas mesmo com a expansão dos negócios.
O retorno sobre patrimônio líquido (ROE) recorrente ficou em 15,2%, estável em relação ao mesmo período de 2025. A combinação de margens robustas com ROE estável mostra que o banco tem rentabilidade consistente, mas opta por preservar capital em vez de acelerar a originação.
“Seguimos com uma postura conservadora na originação, especialmente em linhas de maior risco, até que haja uma melhora consistente nos indicadores de atraso”, afirmou o diretor financeiro do BV, em nota. A estratégia reflete um ambiente em que a recuperação da economia e a queda da inadimplência são aguardadas para o segundo semestre.
Cenário setorial e perspectivas para o crédito
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) elevou de 7,9% para 8,5% a projeção de crescimento da carteira de crédito bancário em 2026, sinalizando expectativa de aceleração na oferta de empréstimos. A revisão reflete um ambiente macroeconômico mais favorável, mas o ritmo de expansão convive com dinâmicas díspares entre as instituições.
Enquanto grandes conglomerados como a Itaúsa reportaram lucros bilionários no trimestre, sustentados por receitas de serviços e margens financeiras robustas, bancos de médio porte como o BV adotam estratégia mais cautelosa. A Petrobras, por sua vez, registrou lucro de R$ 32,6 bilhões, mas ancorada em fundamentos do setor de energia, distintos do varejo financeiro.
Gabriel Ferreira, diretor financeiro do BV, afirmou que a retomada mais vigorosa da originação “depende de uma queda consistente da inadimplência, que esperamos ver no segundo semestre”. A postura reflete a persistência de indicadores de calote em patamares elevados, que pressionam as provisões e limitam o apetite a risco.
Enquanto a inadimplência não ceder de forma sustentada, a expansão do crédito no BV tende a ser gradual e seletiva, concentrada em linhas com garantias mais sólidas. O banco avalia que a qualidade dos novos empréstimos tem sido satisfatória, mas o peso das safras antigas ainda exige cautela.
❓ Perguntas frequentes
Por que o lucro do BV não cresceu mesmo com carteira recorde?
O banco aumentou as provisões para perdas com inadimplência, que somaram R$ 1,1 bilhão no trimestre, alta de 15,3%. A postura conservadora na originação de crédito também limitou o crescimento da margem financeira, mantendo o lucro estável em R$ 481 milhões.
Qual a estratégia do BV para voltar a acelerar o crédito?
O presidente do BV, Gabriel Ferreira, afirmou que o banco aguarda uma queda consistente da inadimplência, esperada para o segundo semestre de 2026. Até lá, a originação seguirá seletiva, concentrada em linhas com garantias, como crédito consignado e veículos.
A inadimplência do BV está muito acima da média do mercado?
O índice de atrasos acima de 90 dias do BV ficou em 5,4% no primeiro trimestre de 2026, ligeiramente acima dos 5,3% do trimestre anterior. Embora elevado, o banco considera a qualidade das novas safras satisfatória, mas as safras antigas ainda pressionam os indicadores.
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