Um biossensor desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) pode revolucionar o diagnóstico do câncer de pâncreas, um dos tumores mais letais. O dispositivo, que utiliza um filme nanoestruturado de ouro e anticorpos, é capaz de detectar a proteína CA 19-9 — principal marcador tumoral da doença — em apenas 10 minutos, com uma gota de sangue e custo estimado 80% inferior aos métodos convencionais. A tecnologia, descrita em artigo na revista científica Biosensors and Bioelectronics, mostrou-se eficaz na identificação de casos em estágios iniciais, quando as chances de cura são significativamente maiores.
\n\n\n\nO câncer de pâncreas é o terceiro tipo
\n\n\n\nO câncer de pâncreas é o terceiro tipo de tumor mais letal no Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A estimativa para o triênio 2023-2025 é de 11.800 novos casos anuais, com uma taxa de mortalidade que se aproxima da incidência: em 2022, foram 11.133 óbitos pela doença. O principal desafio é o diagnóstico tardio: cerca de 80% dos pacientes descobrem o tumor em estágios avançados, quando a sobrevida em cinco anos não passa de 3%. “Quando detectado precocemente, esse índice sobe para 44%, mas os métodos atuais são caros, demorados e pouco acessíveis”, explica o professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, coordenador do Grupo de Polímeros do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e um dos autores do estudo.
\n\n\n\nAtualmente, o exame padrão para monitoramento do CA 19-9 é o ELISA (ensaio de imunoabsorção enzimática), que pode levar horas ou dias para ficar pronto e exige infraestrutura laboratorial complexa. O novo biossensor, por outro lado, é portátil e pode ser operado por profissionais de saúde sem treinamento especializado. “Nossa ideia é que ele seja usado em postos de saúde e clínicas menores, descentralizando o acesso ao diagnóstico precoce”, afirma Oliveira Junior.
\n\n\n\nComo funciona
\n\n\n\nO dispositivo é baseado em uma técnica chamada ressonância de plasmon de superfície localizada (LSPR, na sigla em inglês). Uma fina camada de ouro depositada sobre um substrato de vidro é funcionalizada com anticorpos específicos para a proteína CA 19-9. Quando uma amostra de sangue é aplicada, a interação entre o antígeno e o anticorpo altera o índice de refração da superfície, gerando um sinal óptico que é captado por um espectrômetro portátil. O resultado sai em cerca de 10 minutos, com sensibilidade comparável à do ELISA, mas com custo de produção estimado em R$ 10 por teste, contra R$ 50 a R$ 100 dos métodos tradicionais.
\n\n\n\n“Conseguimos detectar concentrações de CA 19-9 de até 0,5 U/mL, o que é suficiente para identificar casos iniciais. Em pacientes com câncer, os níveis costumam ultrapassar 37 U/mL, mas o importante é que o sensor também diferencia pancreatite e outras condições benignas, que podem elevar temporariamente o marcador”, detalha a pesquisadora Juliana Coatrini Soares, primeira autora do artigo.
\n\n\n\nA equipe testou o biossensor em 147 amostras de sangue de pacientes do Hospital de Câncer de Barretos e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Os resultados mostraram acurácia de 92% na distinção entre amostras saudáveis e cancerosas, com especificidade de 88% e sensibilidade de 94%. O estudo também incluiu casos de pancreatite crônica, que podem gerar falsos positivos no exame de CA 19-9. “O sensor conseguiu diferenciar esses casos, o que é um avanço importante para evitar diagnósticos equivocados”, ressalta Coatrini.
\n\n\n\nImpacto
\n\n\n\nA inovação chega em um momento crítico. Dados do Datasus mostram que as internações por câncer de pâncreas no SUS cresceram 28% entre 2015 e 2022, passando de 8.400 para 10.800 por ano. O custo médio por internação é de R$ 4.200, e o tempo médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico pode ultrapassar seis meses. “Se conseguirmos encurtar essa janela, o impacto na sobrevida e na economia do sistema de saúde será enorme”, avalia o oncologista Paulo Hoff, presidente do conselho do Icesp.
\n\n\n\nO biossensor ainda precisa passar por validação em larga escala e aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes de chegar ao mercado, mas a equipe já trabalha em parceria com uma startup para produção industrial. A expectativa é que o dispositivo esteja disponível em até três anos. “Queremos que ele seja uma ferramenta de triagem, especialmente para grupos de risco, como pessoas com histórico familiar, pancreatite crônica ou diabetes tipo 2 de início recente”, diz Oliveira Junior.
\n\n\n\nEnquanto isso, a ciência brasileira celebra mais um passo na luta contra um câncer que, segundo o INCA, deve se tornar a segunda causa de morte por tumor no país até 2030. “É um exemplo de como a pesquisa básica pode gerar soluções concretas para a saúde pública”, conclui Hoff.
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