A safra brasileira de cana-de-açúcar 2025/26 deve somar 663,44 milhões de toneladas, queda de 2% em relação ao ciclo anterior, segundo o 1º levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento. O recuo nacional chega em um momento de ajuste no coração produtivo do setor: no Centro-Sul, a indústria aumenta a fabricação de etanol, reduz a produção inicial de açúcar e prepara expansão de área para a próxima safra.
O contraste não é apenas estatístico. A cana abastece duas cadeias estratégicas — açúcar e etanol — e a decisão das usinas sobre o destino da matéria-prima influencia preços, caixa das empresas, demanda por crédito e renda no campo. Em anos de produtividade mais apertada, a escolha entre cristalizar açúcar ou fermentar etanol ganha peso maior na margem das usinas.
Conab vê menor produção nacional em 2025/26
A estimativa de 663,44 milhões de toneladas da Conab é o número de referência para dimensionar a safra brasileira. A queda de 2% indica uma oferta física menor de cana no país, ainda que o impacto final sobre açúcar e etanol dependa da produtividade dos canaviais, da qualidade da matéria-prima e do mix industrial escolhido pelas usinas ao longo do ciclo.
Esse dado nacional mede volume anual de cana e não se confunde com os indicadores de curto prazo do Centro-Sul. A região concentra a maior parte da moagem brasileira e costuma antecipar a direção do mercado, mas seus primeiros meses de safra mostram mais a estratégia industrial do momento do que uma sentença definitiva sobre o resultado anual.
Centro-Sul acelera etanol e reduz açúcar no início da moagem
No Centro-Sul, dados setoriais indicam queda de 2% na produção de açúcar nos dois primeiros meses de safra, enquanto a fabricação de etanol avança 31,55%. A diferença entre os movimentos mostra a flexibilidade da cadeia: a mesma tonelada de cana pode reforçar estoques de açúcar ou abastecer o mercado de combustíveis, conforme preço, demanda e capacidade operacional das unidades.
A leitura de curto prazo ajuda a explicar por que o setor acompanha não só o tamanho da safra, mas também a destinação da cana. Uma produção nacional menor pode ter efeitos distintos se as usinas privilegiarem etanol, se o açúcar recuperar atratividade ou se a qualidade da cana alterar o rendimento industrial ao longo da moagem.
Para a safra 2026/27, a área para colheita de cana no Centro-Sul aparece com alta de 3%. A expansão aponta disposição de recompor capacidade produtiva, mas área maior não garante, por si só, mais açúcar ou mais etanol: o resultado dependerá de clima, produtividade agrícola e do mix definido pelas usinas quando a cana chegar à moagem.
Subvenção de R$ 270 milhões mira produtores do Nordeste
Em paralelo aos indicadores de safra, o Governo Federal publicou medida provisória que prevê R$ 270 milhões em subvenção a produtores de cana do Nordeste. A política tem foco regional e busca compensar perdas em uma área com estrutura produtiva diferente da do Centro-Sul, mais exposta a limitações climáticas e a margens apertadas.
A medida entra em um ambiente de maior disputa por recursos públicos no agro. O Plano Safra 2026/27 soma R$ 620 bilhões, mas o espaço fiscal para equalização de juros e subsídios segue pressionado. Por isso, a execução dos R$ 270 milhões será acompanhada de perto por produtores, usinas e agentes financeiros que operam com a cadeia da cana.
O quadro que se forma é de oferta nacional menor, indústria mais inclinada ao etanol no início da safra e apoio federal direcionado ao Nordeste. A próxima rodada de números da Conab e as regras de acesso à subvenção devem definir se o setor entra no ciclo com alívio de caixa ou com nova pressão sobre produção, preços e crédito.











