Gestoras especializadas em ativos estressados avançam sobre créditos de credores da Raízen no momento em que a companhia conduz uma reestruturação de R$ 65 bilhões, considerada a maior recuperação extrajudicial do país em valor de dívida negociada.
A movimentação ganhou força nesta quinta-feira (18), com a expectativa de que duas gestoras passem a concentrar parte dos créditos hoje dispersos entre bancos, fundos e demais credores. A entrada desses investidores muda o equilíbrio da negociação: em vez de uma base pulverizada, a Raízen pode passar a lidar com agentes com maior capacidade de coordenação e apetite para influenciar os termos econômicos da reorganização.
Controlada por Cosan e Shell, a Raízen informou ter obtido adesão de 80% dos credores relevantes ao plano. O percentual dá sustentação ao avanço da recuperação extrajudicial e abre espaço para a etapa mais sensível do processo: definir quem fica com os créditos, qual será a recuperação esperada pelos credores e como a empresa será reorganizada após a divisão prevista no plano.
Disputa por créditos mira influência na Raízen reorganizada
A negociação interessa às gestoras porque créditos de empresas em reestruturação podem ser comprados com desconto e ganhar valor conforme o plano avança. Para credores que preferem reduzir exposição, vender esses papéis antecipa parte do recebimento. Para investidores especializados, a compra pode abrir caminho para uma posição econômica relevante na companhia reorganizada.
Ao menos cinco gestoras sinalizaram interesse em comprar dívidas da Raízen. Entre os movimentos já conhecidos, a IG4 Capital apresentou proposta para adquirir 50% mais um dos créditos detidos por credores da companhia. A oferta indica uma tentativa de formar posição majoritária dentro de um bloco específico de créditos, o que pode pesar nas deliberações sobre a recuperação.
A primeira reunião de trabalho entre a empresa e credores ocorreu nesta semana, depois da adesão ao plano. A partir dela, a discussão deixa de girar apenas em torno do tamanho da dívida e passa a tratar da arquitetura da nova Raízen: quais ativos ficam em cada unidade, como os credores serão remunerados e que grau de influência terão no negócio após a reestruturação.
Plano separa açúcar e etanol da distribuição de combustíveis
O ponto central do plano é a divisão da Raízen em duas frentes. Uma reuniria os ativos ligados a açúcar e etanol, área em que a empresa é a maior do país. A outra ficaria concentrada na distribuição de combustíveis, negócio que dá à companhia presença relevante em uma cadeia sensível para consumidores, fornecedores e agentes financeiros.
Essa separação é decisiva porque cada unidade tem dinâmica própria de geração de caixa, risco operacional e valor de mercado. Para os credores, a pergunta prática é quanto cada negócio pode sustentar de dívida e qual parcela do valor futuro será capturada por quem aceitar os termos da recuperação.
A escala da Raízen amplia o impacto da negociação. A companhia opera no centro da cadeia sucroenergética, com reflexos sobre produtores, fornecedores, tradings, bancos e o mercado de combustíveis. Uma reorganização de R$ 65 bilhões não afeta apenas o balanço da empresa; ela reorganiza relações comerciais em um setor estratégico para o país.
Controle econômico entra no radar de credores e controladoras
Cosan e Shell seguem como controladoras da Raízen, mas a concentração de créditos nas mãos de gestoras especializadas pode alterar o peso relativo dos credores nas decisões econômicas da companhia. Mesmo sem mudança imediata no controle formal, investidores com posições relevantes em dívida costumam ganhar influência sobre prazos, garantias, descontos e conversões previstas em planos de reestruturação.
Os nomes das duas gestoras que devem assumir os créditos e os valores envolvidos ainda não foram anunciados pela Raízen. Também não há prazo público para a conclusão da divisão da companhia. O que já está em curso é a disputa por posições dentro da dívida, etapa que tende a definir a correlação de forças entre credores, gestoras e acionistas na recuperação extrajudicial.
O próximo passo concreto é a formalização dos créditos que serão transferidos ou concentrados nas gestoras escolhidas. Essa definição dará ao mercado a primeira medida de quem ganha poder na mesa de negociação e de como a maior recuperação extrajudicial do Brasil será repartida entre açúcar, etanol e distribuição de combustíveis.











