Uma empregada doméstica de 19 anos, grávida de cinco meses, foi torturada com choques elétricos, agressões físicas e ameaças constantes pela própria patroa em Paço do Lumiar, na região metropolitana de São Luís. A acusada, a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, de 36 anos, foi presa na manhã de 7 de maio de 2026, em Teresina (PI), após mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça do Maranhão.
Segundo a Polícia Civil do Maranhão, as agressões foram registradas em áudios e no depoimento da vítima, que relatou ter sido falsamente acusada de furtar uma joia — justificativa usada para as sessões de tortura. A defesa de Carolina afirmou que ela se apresentou voluntariamente às autoridades após a expedição do mandado.
O caso reacende o debate sobre a violência contra trabalhadoras domésticas no estado. Dados da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad) indicam que o Maranhão registrou 59 denúncias de trabalho análogo à escravidão e 97 violações de direitos humanos apenas no último ano.
Histórico criminal e mandado de prisão
Carolina Sthela já acumulava duas condenações na Justiça antes deste episódio. Em 2023, foi sentenciada por furto qualificado após desviar R$ 20 mil da empresa da irmã. Também respondeu por calúnia contra uma ex-babá, conforme apurado pela reportagem.
A reincidência em condutas violentas contra trabalhadoras domésticas chama a atenção de especialistas. “Esse caso não é isolado, mas expressão de uma lógica escravagista que ainda permeia o trabalho doméstico no Brasil”, declarou Luiza Batista, presidenta da Fenatrad, em nota divulgada pela entidade.
O mandado de prisão preventiva foi fundamentado na gravidade dos crimes e no risco de reiteração delitiva, considerando o histórico criminal da empresária. A Polícia Civil do Maranhão informou que as investigações continuam para apurar outras possíveis vítimas e a extensão dos maus-tratos.
Violência doméstica e racismo estrutural
O Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Maranhão e o Ministério Público do Trabalho (MPT) divulgaram nota conjunta classificando o caso como expressão de uma cultura de violência e violações de direitos que persiste no estado. A nota ressalta que a vítima, uma jovem negra e gestante, sofreu agressões que remontam a práticas de tortura historicamente infligidas a corpos negros e femininos no ambiente doméstico.
Para a socióloga Vilma Reis, o episódio escancara a permanência da lógica escravagista no Brasil. “A sociedade brasileira nunca rompeu com a escravidão. Ela apenas a remodelou”, afirmou em entrevista ao Brasil 247.
A Fenatrad reforça que a precarização do trabalho doméstico e a ausência de fiscalização efetiva contribuem para a naturalização dessas violações. A entidade cobra políticas públicas de prevenção e canais de denúncia mais acessíveis.
Próximos passos e proteção à vítima
Após a prisão preventiva, a Justiça do Maranhão deve realizar a audiência de custódia em até 24 horas, conforme determina a legislação processual penal. Nessa etapa, o juiz avaliará a legalidade da detenção e a necessidade de manutenção da prisão, podendo convertê-la em medidas cautelares ou mantê-la para garantia da ordem pública e da instrução criminal.
O inquérito policial segue em andamento com coleta de depoimentos e análise de provas, como os áudios que registram ameaças e agressões. Enquanto isso, o MPT e o Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Maranhão cobram medidas protetivas urgentes para a vítima, incluindo assistência psicossocial, médica e jurídica, além de afastamento imediato do local de trabalho e inclusão em programas de proteção a testemunhas.
O caso reacende o alerta para denúncias de violações contra trabalhadoras domésticas. O MPT disponibiliza o site www.mpt.mp.br e o aplicativo MPT Pardal para relatos de abusos, enquanto a Polícia Civil maranhense mantém o Disque 100 e o número 190 para emergências.











