O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recebeu R$ 500 mil de uma empresa de contabilidade cujo sócio é investigado no caso Banco Master, mas não apresentou o contrato nem descreveu os serviços jurídicos que teriam motivado o pagamento. As notas fiscais foram emitidas pelo escritório de advocacia do parlamentar em 7 de abril de 2025 e divulgadas nesta semana.
Além do valor efetivamente recebido, o escritório emitiu outras duas notas de R$ 500 mil cada para uma segunda empresa, a Copenhagen Assessoria e Consultoria, que também tem vínculos com o caso Master. Ambas foram canceladas no mesmo dia. O senador confirmou a emissão e o cancelamento, mas afirmou que desistiu da prestação de serviços.
A transação acendeu um alerta no PL, partido pelo qual Flávio é pré-candidato à Presidência da República. Dirigentes da legenda avaliam reservadamente que o episódio prolonga uma crise que a pré-campanha tentava encerrar desde maio, além de aprofundar a desconfiança sobre a proximidade entre o senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Master.
O que as notas mostram
A nota fiscal quitada foi destinada à Contábil Correa Contabilidade & Auditoria LTDA, empresa que tem como sócio-administrador Rogério Lourenço Novo. Ele é citado no contexto das investigações sobre repasses do Banco Master a agentes públicos. Já as notas canceladas tinham como cliente a Copenhagen Assessoria e Consultoria, que tinha em seu quadro Artur Figueiredo, gestor da Trustee DTVM — administradora de fundos citada nas investigações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União (CGU) sobre fraudes financeiras no banco.
Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo em 22 de julho para se defender. Disse que a contratação seguiu os trâmites legais, que não há vínculo com Vorcaro e que desistiu do serviço para a Copenhagen. Em nenhum momento, porém, detalhou qual foi a consultoria jurídica prestada à Contábil Correa que justificasse o valor de R$ 500 mil. Também não exibiu contrato, escopo do trabalho ou provas da entrega efetiva dos serviços.
A ausência dessas informações mantém em aberto a pergunta central: houve contraprestação real ou o pagamento configura uma transação sem lastro documental apresentado publicamente, em meio a um escândalo financeiro que já levou a PF a investigar desvios em fundos de previdência? O senador não é investigado formalmente no caso Master, e a acusação de irregularidade criminal exigiria denúncia ou indiciamento — o que não ocorreu até agora.
Reação do senador e pressão no PL
Na quarta-feira (22), Flávio Bolsonaro classificou a reportagem que revelou as notas como “criminosa” e afirmou: “A todo momento tentam me atacar, eu também fico cansado de ficar me defendendo, eu quero dar uma triste notícia a você que quer me destruir: eu não vou desistir”. A declaração foi dada em vídeo publicado nas redes sociais.
Nos bastidores do PL, a nova revelação reacendeu o desconforto. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também pré-candidato, cobrou publicamente explicações de Flávio sobre a relação com o Banco Master. Aliados de Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, temem que o caso respingue na campanha presidencial e alimente o discurso de adversários.
O que pesa agora
A PF e o Ministério Público Federal não anunciaram a inclusão do senador nas investigações do caso Master. Essa ressalva é central para separar o desgaste político da situação jurídica de Flávio, que por ora enfrenta pressão para explicar a origem, o escopo e a execução do serviço cobrado.
Sem a apresentação do contrato e da descrição dos trabalhos realizados, o pagamento de R$ 500 mil segue como um flanco aberto para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro e para o PL, que tenta conter a associação do nome do senador ao caso Banco Master.












