O mel produzido por abelhas sem ferrão, espécies nativas do Brasil, chega a custar R$ 600 por litro — preço até 12 vezes superior ao do mel convencional. Os dados são da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que dimensiona o abismo entre dois mercados que convivem no campo brasileiro.
Segundo a pesquisadora Fábia de Mello, da Embrapa, o litro do mel da abelha-africanizada, que tem ferrão, custa em média R$ 47. Já o das abelhas sem ferrão varia de R$ 120 a R$ 600. A diferença reflete fatores biológicos: essas abelhas formam colônias menores, têm menor atividade diária e produzem menos.
Biologia explica o preço
A meliponicultura — criação de abelhas sem ferrão — envolve espécies nativas como a uruçu-amarela, conhecida pela alta produtividade relativa, e a mandaguari, valorizada por propriedades diferenciadas. O mel dessas abelhas tem menos açúcar, maior acidez e textura mais líquida, com maior teor de água, o que favorece a fermentação natural.
Essas características físicas abriram portas na alta gastronomia, onde chefs buscam sabores distintos e ingredientes de origem. O posicionamento de nicho impulsiona o teto de preço, mas não elimina o desafio produtivo: colônias menores significam volumes baixos por colmeia.
Do Cerrado ao mercado chinês
Em Brasília, o produtor Luiz, com 25 anos de experiência, cultiva colmeias no Parque da Cidade e exporta 8,5 toneladas de mel por mês para a China. Além da produção, ele presta serviços de polinização em propriedades locais — atividade que diversifica a receita e reduz a dependência da venda do mel.
No Rio Grande do Sul, a meliponicultura deu um passo institucional. Em junho, o estado registrou o primeiro envase de mel de abelhas sem ferrão com inspeção federal (SIF), após autorização do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O lote pertence a Vinícius Gomes, proprietário do Bella Mata Apiário e Meliponário, em Caraá, no Litoral Norte gaúcho, que cria 15 espécies nativas e preside a Associação de Apicultores e Meliponicultores do município.
Desafios de escala
O selo federal abre caminho para comercialização em maior escala, mas a expansão enfrenta barreiras estruturais. A baixa produtividade por colmeia limita o volume disponível, e o manejo exige conhecimento técnico específico para cada espécie. Para o produtor, o preço alto só se converte em margem quando há regularidade de oferta e acesso a compradores dispostos a pagar pelo produto de nicho.
Para o consumidor, a cifra afasta a substituição do mel comum. O litro a R$ 600 se concentra em usos culinários específicos, presentes e consumo premium — não em mesa de café da manhã. A decisão de compra passa pela valorização da origem nativa e das propriedades sensoriais únicas, não pela quantidade.
O reconhecimento federal do mel de abelhas sem ferrão no Rio Grande do Sul sinaliza um caminho de profissionalização para o setor. Com o SIF em mãos, produtores pretendem ampliar a comercialização e transformar a baixa produtividade das colônias nativas em argumento de venda — não em obstáculo.











