A startup brasileira Enter alcançou o status de unicórnio ao atingir avaliação de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) após receber um aporte de US$ 100 milhões liderado pelo Founders Fund, de Peter Thiel. A empresa, que desenvolve inteligência artificial para o setor jurídico, afirma que seu objetivo é colocar o Brasil no G5 mundial de desenvolvimento de IA, ao lado de Estados Unidos, China e outros líderes.
Fundada em setembro de 2023 por Mateus Costa-Ribeiro, Michael Mac-Vicar e Henrique Vaz, a Enter começou com receita mensal de R$ 8 mil e, em cinco meses, saltou para R$ 80 mil. Costa-Ribeiro, então aluno de MBA em Stanford, abandonou o curso para se dedicar integralmente à startup. “Eu acordava às 4h da manhã todos os dias para trabalhar com o time, que ficava no Brasil. Em dezembro, decidi abandonar o MBA porque a sensação de tocar a empresa pela metade era insuportável”, afirmou o CEO e cofundador.
A plataforma EnterOS automatiza a análise de processos judiciais, cruza informações e estrutura estratégias de defesa para grandes corporações. Clientes como Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb e Latam Airlines já utilizam a tecnologia. Segundo a empresa, a Latam aumentou em 30% a taxa de improcedência de processos com o uso da EnterOS.
Brasil como polo global de IA: ambição ou plano concreto?
“Nosso objetivo é colocar o Brasil no G5 mundial de IA, ao lado dos Estados Unidos, da China e dos países que vão definir essa geração de tecnologia”, declarou Mateus Costa-Ribeiro. A meta, no entanto, enfrenta desafios: infraestrutura de dados, regulação e formação de talentos. A Enter afirma que o país concentra mais de 90% dos processos trabalhistas globais, o que gera altos custos para corporações. “Se conseguimos resolver esse problema no Brasil, conseguimos resolver em qualquer lugar do mundo”, disse o CEO, citando que empresas americanas como Meta e United sofrem mais processos de consumidores aqui do que nos EUA.
A rodada de US$ 100 milhões contou com a participação de Ribbit Capital e Sequoia Capital. A Enter mantém parcerias com OpenAI e Anthropic, garantindo que nenhum dado de clientes seja armazenado por essas empresas. A segurança de dados sensíveis é um ponto crítico no setor jurídico, altamente regulado.
Tecnologia que automatiza defesas e libera advogados para o estratégico
“Construímos um produto que permite customização em escala para além do que um ser humano consegue fazer. Nós assumimos toda a parte processual e deixamos o estratégico para o advogado. Todos os processos que rodam na Enter são auditados e revisados por um advogado habilitado do cliente”, explicou Costa-Ribeiro. A plataforma promete reduzir custos e acelerar a resolução de litígios em um sistema judiciário que a própria empresa considera um dos mais complexos do mundo.
A Enter enxerga um mercado imenso no Brasil, onde os tribunais trabalhistas recebem milhões de ações anualmente. Com o aporte, a startup planeja expandir para outros países da América Latina e, eventualmente, para mercados como Estados Unidos e Europa, onde grandes empresas também enfrentam litígios complexos.
Expansão e contratação de talentos em IA
A empresa não detalhou publicamente planos de contratação, mas a rodada de investimento deve acelerar a busca por engenheiros e especialistas em machine learning. O ecossistema brasileiro de IA ainda é incipiente, mas a Enter espera servir como catalisador. “O Brasil tem potencial para ser um player relevante, mas precisa de investimento privado e políticas públicas que fomentem a inovação”, avalia o cofundador.
Apesar do otimismo, alertas editoriais apontam que a meta de colocar o Brasil no G5 pode ser mais um objetivo de marketing do que um plano realista sem dados concretos de investimento em P&D e infraestrutura. A Enter não divulgou indicadores de participação de mercado nem concorrentes diretos no setor jurídico brasileiro.
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