Enquanto a Nestlé registrava crescimento de volume de vendas no Brasil e no México no segundo trimestre, as exportações da indústria brasileira para o mercado mexicano desabavam 42,5% no primeiro semestre, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os dados, ambos divulgados nesta quinta-feira (23), expõem um contraste entre a recuperação do consumo de alimentos e as barreiras comerciais que afetam a produção industrial.
A multinacional suíça informou em seu balanço semestral que a América Latina teve crescimento orgânico de 5,8% no segundo trimestre, com expansão de 4,2% no volume real de vendas (RIG, na sigla em inglês), indicador que exclui o efeito dos preços. Brasil e México foram os principais mercados a impulsionar esse desempenho, especialmente nas divisões de café e confeitaria.
“A desaceleração dos reajustes de preços favoreceu a recuperação dos volumes na região”, afirmou a diretora financeira da Nestlé, Anna Manz, em teleconferência com analistas. A empresa vinha de anos de aumentos sucessivos para repassar a inflação de insumos como café e cacau. Agora, a estabilização permitiu que mais consumidores voltassem a comprar.
Preços menores reativam consumo
O resultado na América Latina contrasta com o desempenho global da Nestlé. O lucro líquido da companhia caiu 31,4% no primeiro semestre, para 3,5 bilhões de francos suíços, pressionado por uma baixa contábil de 1,3 bilhão de francos. A margem operacional na Zona Américas, porém, ficou em 19,3%, indicando que a região manteve rentabilidade mesmo com a estratégia de preços mais contidos.
Barreira tarifária atinge indústria
Enquanto o consumo de alimentos mostra fôlego, a indústria brasileira enfrenta um cenário oposto no comércio com o México. A CNI calcula que as exportações de produtos brasileiros ao país caíram 42,5% no primeiro semestre de 2026 em relação à média dos três anos anteriores, uma perda de US$ 91,5 milhões. A queda coincide com a entrada em vigor, em 1º de janeiro, de novas tarifas mexicanas sobre produtos que vão de alimentos a manufaturados.
O tombo nas vendas industriais ao México contrasta com o desempenho do agronegócio. Em abril de 2026, as exportações do agro cresceram 11,7% e bateram recorde. A diferença mostra como barreiras protecionistas afetam de forma desigual os setores da economia brasileira.
Risco é sustentar volume sem nova alta de preços
A Nestlé não detalhou projeções de preços para o segundo semestre no Brasil, mas a inflação de insumos como café e cacau permanece como risco. Se os custos voltarem a subir, a empresa pode ser forçada a novos reajustes, o que frearia a recuperação de volumes.
Os números reforçam a dualidade do momento: o consumo interno reage à trégua nos preços, mas as exportações industriais sofrem com o protecionismo. Para a Nestlé, a continuidade da recuperação no Brasil dependerá da capacidade de preservar volume sem sacrificar margens; para a indústria, o ponto imediato é o impacto das tarifas mexicanas já em vigor.












