Antes de coreografia virar desafio de rede social, o funk brasileiro já sabia como transformar um refrão simples em febre nacional. É esse lugar que “Ah Lelek lek lek”, de MC Federado e Os Lelek, ocupa na memória pop: uma música curta, direta e feita para dançar, que saiu do circuito do funk carioca e chegou a dois personagens improváveis no mesmo ano, Beyoncé e Neymar.
A faixa, lançada em 2012, voltou a ser lembrada na série “20 hits em 20 anos”, publicada nesta quinta-feira (18), que revisita músicas brasileiras capazes de atravessar o próprio tempo. No caso de “Ah Lelek lek lek”, a força não estava em uma letra elaborada nem em produção sofisticada, mas na combinação entre bordão, batida e uma coreografia fácil de repetir: o passinho do volante.
O auge veio em 2013. Neymar, então no Santos, usou o passo em comemorações de gol e ajudou a levar a dança para transmissões esportivas e programas de televisão. Meses depois, em 13 de setembro, Beyoncé surpreendeu o público do Rock in Rio ao incorporar o “Lelek lek lek” ao show no Rio de Janeiro. A cena consolidou o hit como um daqueles momentos em que a cultura popular brasileira escapa do nicho e entra no repertório global.
Por que o passinho pegou
“Ah Lelek lek lek” surgiu em um período em que o funk ostentação paulista dominava parte do imaginário musical do país, com letras sobre carros, marcas e consumo. O hit de MC Federado e Os Lelek seguiu por outra via: retomou a tradição carioca das danças coletivas, de execução simples e efeito imediato em festas, bailes e vídeos caseiros.
Essa simplicidade explica a velocidade com que a música circulou. O refrão funcionava como chamada, a batida sustentava a repetição e o gesto do volante dispensava tradução. Era uma coreografia compreensível em segundos, o tipo de movimento que qualquer pessoa podia imitar sem ensaio — qualidade decisiva para um hit popular antes da consolidação do TikTok como fábrica de danças virais.
Do baile ao palco de Beyoncé
A passagem pelo show de Beyoncé não transformou “Ah Lelek lek lek” em fenômeno internacional duradouro, mas deu ao funk brasileiro uma imagem poderosa: uma das maiores artistas pop do mundo reproduzindo, no palco principal de um festival, um gesto nascido na cultura de pista do Rio. Para a história do gênero, o episódio vale menos como curiosidade e mais como registro de alcance.
Quatorze anos depois do lançamento, a música permanece como cápsula de uma internet em transição. O país já vivia a lógica do viral, mas ainda dependia de televisão, futebol, shows e compartilhamentos dispersos para transformar uma dança em mania. “Ah Lelek lek lek” sobrevive justamente por reunir tudo isso: refrão pegajoso, coreografia popular, Neymar em campo e Beyoncé no Rock in Rio.
O resgate do hit recoloca a faixa entre os exemplos mais claros de como o funk carioca moldou a cultura pop brasileira recente. Mesmo sem a permanência de outros sucessos do gênero nas paradas, o passinho do volante segue reconhecível — e é essa memória coletiva que mantém “Ah Lelek lek lek” vivo.











