Em apenas três meses, as famílias brasileiras tomaram R$ 109,65 bilhões na linha de crédito mais cara do país: o rotativo do cartão. O valor, registrado no primeiro trimestre de 2025, representa um salto de 9,7% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme dados do Banco Central. A modalidade cobra juros médios de 428,3% ao ano e acumula uma inadimplência de 63,5% — a cada R$ 100 emprestados, mais de R$ 60 não são pagos.
O rotativo é acionado automaticamente quando o consumidor não consegue quitar o valor integral da fatura do cartão. Com a economia ainda patinando e a renda comprimida, milhões de brasileiros recorrem a essa válvula de escape, mesmo sabendo do custo proibitivo. Dados do Banco Central mostram que 101 milhões de pessoas possuem cartão de crédito no Brasil — quase metade da população.
O cenário preocupa a autoridade monetária. “Nossa dimensão do BC é como a gente consegue construir alternativas para o cliente ter uma opção mais adequada à situação dele”, afirmou Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central. A declaração sinaliza a dificuldade de domar um produto que, apesar do risco, segue como alternativa imediata para quem está no vermelho.
R$ 110 bilhões em três meses: o tamanho da enrascada
As concessões do rotativo atingiram R$ 109,65 bilhões entre janeiro e março de 2025, conforme o Banco Central. O montante supera em quase R$ 10 bilhões o registrado no primeiro trimestre de 2024, quando somaram R$ 99,9 bilhões. A taxa de juros média, em março, era de 428,3% ao ano — a mais alta entre todas as linhas de crédito para pessoas físicas.
A inadimplência escancara o descontrole financeiro. De acordo com o BC, 63,5% dos tomadores não honraram o pagamento no período. Cerca de 40 milhões de brasileiros estavam com dívida ativa nessa modalidade em janeiro. “Produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”, reforçou Renato Gomes, ao comentar os esforços do órgão.
O rotativo funciona como um empréstimo de curtíssimo prazo, mas os juros compostos transformam uma dívida pequena em uma bola de neve. Quem entra nessa roda muitas vezes só consegue sair com renegociações ou portabilidade para linhas mais baratas — opções que nem sempre estão disponíveis para os mais vulneráveis.
O freio que não segurou: a regra dos juros limitados a 100% da dívida
Desde janeiro de 2024, uma lei sancionada pelo governo federal limita os juros do rotativo a 100% do valor original da dívida. A medida impede que o débito total ultrapasse o dobro do principal, mas não conteve a escalada do uso dessa linha. Os números do Banco Central mostram que as concessões continuaram subindo, apesar do teto.
A regra foi uma resposta do Congresso ao superendividamento das famílias, mas esbarra na realidade de um mercado onde o crédito caro ainda é o único acessível para muitos. O BC avalia que a solução passa por uma “discussão estrutural” sobre o endividamento, indo além de medidas pontuais.
Enquanto isso, o rotativo segue como a principal porta de entrada para o calote. A taxa de inadimplência de 63,5% revela que a maioria dos usuários não consegue sequer pagar o mínimo, gerando um ciclo vicioso que alimenta os lucros dos bancos e afunda os consumidores.
Governo reage em ano eleitoral: alternativas ao rotativo entram na pauta
Em ano pré-eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o ministro da Fazenda para discutir medidas de combate ao endividamento, segundo informou o Banco Central. O foco recai sobre o rotativo do cartão, que acumulou R$ 109,65 bilhões em concessões no primeiro trimestre, com juro de 428,3% ao ano e 40 milhões de inadimplentes.
A pressão política para aliviar o bolso do eleitor é evidente. O governo avalia mecanismos para baratear o crédito e conter o superendividamento, enquanto a autoridade monetária trabalha em novas regulações para o setor. A meta, segundo o BC, é “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.
A discussão, classificada como “estrutural” pela instituição, mira reduzir a dependência do rotativo. Entre as alternativas em estudo estão o parcelamento de faturas com juros menores e a portabilidade automática do saldo devedor. Mas, por enquanto, o consumidor segue refém da linha mais cara do mercado.
❓ Perguntas frequentes
Quanto custa o crédito rotativo do cartão?
Em março de 2025, a taxa média de juros do rotativo era de 428,3% ao ano, segundo o Banco Central. É a linha de crédito mais cara para pessoas físicas no Brasil.
O que é o crédito rotativo do cartão?
É um empréstimo automático concedido quando o cliente não paga o valor total da fatura. Os juros incidem sobre o saldo remanescente e podem dobrar a dívida rapidamente.
Quantos brasileiros estão inadimplentes no rotativo?
Cerca de 40 milhões de pessoas tinham dívida ativa nessa modalidade em janeiro de 2025, com uma taxa de inadimplência de 63,5% no período.
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