Piracicaba começou a entregar cerca de 1.500 glicosímetros a pacientes com diabetes que aguardavam na fila de espera das farmácias municipais. A convocação, feita por agendamento, foi divulgada pela Prefeitura nesta segunda-feira (6) e resolve a espera de parte dos usuários — e expõe uma distância entre a lei e o balcão: o aparelho é um direito garantido a quem usa insulina no SUS desde 2006.
O glicosímetro mede a glicose no sangue a partir de uma gota colhida na ponta do dedo e é a ferramenta que permite ao paciente insulinodependente ajustar remédio, alimentação e rotina — sem ele, o controle do diabetes tipo 1, tipo 2 e gestacional vira tentativa e erro. A entrega ocorre de forma gradativa, seguindo a ordem da fila, com prioridade para quem se enquadra nos critérios de atendimento preferencial previstos na legislação federal.
Em resumo:
- A Secretaria Municipal de Saúde entrega cerca de 1.500 glicosímetros em horários agendados, na farmácia de referência de cada usuário.
- Têm direito ao aparelho pacientes com prescrição médica válida e em uso de insulina, conforme o protocolo municipal.
- O fornecimento gratuito de glicosímetro, tiras e lancetas a quem usa insulina é obrigação do SUS desde a Lei federal 11.347, de 2006.
- A pasta não divulgou quantas pessoas permanecem na fila nem o tempo médio de espera pelo equipamento.
Fila se formou em torno de um direito que completa 20 anos
A distribuição gratuita de medicamentos e dos materiais de monitoramento da glicemia — aparelho, tiras reagentes e lancetas — é obrigação do SUS desde a Lei federal 11.347, de setembro de 2006. A Portaria 2.583, de 2007, do Ministério da Saúde, delimitou o alcance: o kit de automonitoramento é devido a pessoas com diabetes que usam insulina, de qualquer tipo da doença. É exatamente esse o público da entrega atual em Piracicaba, segundo os critérios divulgados pela Secretaria.
Ao informar que os convocados “são aqueles que já aguardavam na fila de espera”, a própria divulgação oficial confirma que havia represamento na ponta — pacientes com prescrição e direito garantido em lei que ainda não dispunham do aparelho. O tema também avançou no Legislativo local: em maio, a Câmara de Piracicaba aprovou projeto que amplia os direitos de quem tem diabetes tipo 1, como o PIRANOT mostrou na cobertura da votação.
Compra é quase quatro vezes a de 2014 — e o diabetes não parou de crescer
O tamanho do lote dá a dimensão da demanda. Em janeiro de 2014, quando ampliou o Programa de Automonitoramento Glicêmico, a Prefeitura distribuiu 400 aparelhos novos, num investimento de R$ 144 mil, para um programa que tinha então 3.628 inscritos, segundo a divulgação oficial da época. Os cerca de 1.500 glicosímetros de agora representam quase quatro vezes aquela compra — para uma fila cujo tamanho atual a Secretaria não informou.
A pressão vem da epidemia. Entre 2006 e 2024, a fatia de adultos brasileiros com diagnóstico de diabetes saltou de 5,5% para 12,9% — alta de 135% em 18 anos, segundo a pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde. Não existe recorte municipal do Vigitel, mas, numa cidade de 423.323 habitantes pelo Censo 2022 do IBGE, a taxa nacional sugere dezenas de milhares de moradores convivendo com a doença. Nem todos usam insulina — e, portanto, nem todos têm direito ao aparelho pela regra do SUS —, mas a base de pacientes elegíveis cresce ano a ano junto com ela.
O que a Secretaria não divulgou — e como retirar o aparelho
Três números que dimensionam o problema não constam de nenhuma divulgação oficial localizada até a publicação desta reportagem: quantas pessoas permanecem na fila depois desta entrega, qual o tempo médio de espera pelo equipamento e se há cronograma para zerar o represamento.
Para quem foi convocado, o roteiro é objetivo: comparecer à farmácia de referência no dia e horário agendados, levando a documentação — a prescrição médica vale por seis meses a partir da data de emissão. A convocação é feita por WhatsApp ou ligação telefônica; quem está apto a receber o aparelho e ainda não foi contatado deve procurar diretamente sua farmácia de referência para se orientar e agendar. A Secretaria recomenda manter telefone e dados cadastrais atualizados, já que parte dos pacientes não vem sendo localizada pelos números informados.
Comunidade PIRANOT
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