Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fizeram circular no WhatsApp, na sexta-feira (3), uma figurinha que mostra Michelle Bolsonaro com camiseta e boné do PT. A imagem apareceu um dia depois de a ex-primeira-dama elogiar uma ação do governo Lula voltada à inclusão de pessoas com deficiência — e virou munição na disputa interna do bolsonarismo.
O meme foi distribuído em listas de transmissão ligadas ao entorno de Flávio e explorou a ideia de que Michelle teria se aproximado do campo petista. A autoria da montagem não foi identificada. O episódio expôs uma mudança brusca de temperatura: em poucos dias, Michelle passou de ativo eleitoral do PL a alvo de aliados do próprio clã Bolsonaro.
Neste sábado (4), Michelle reagiu ao enquadramento político da declaração. Ela afirmou que “a defesa das pessoas com deficiência é uma causa” que considera “acima de ideologias e partidos políticos”. A frase tenta separar o elogio à política pública de qualquer gesto de alinhamento com Lula, mas não desfaz o desgaste aberto com Flávio.
Racha avança em três atos
A crise ganhou corpo em sequência. Em 30 de junho, Michelle deixou a presidência do PL Mulher, posto que a colocava como principal rosto da legenda na conversa com o eleitorado feminino. Em 1º de julho, publicou um vídeo com críticas a Flávio Bolsonaro e levou a divergência para fora dos bastidores. Em 3 de julho, o elogio à iniciativa federal na área de inclusão serviu de gatilho para a ofensiva digital.
A figurinha com uniforme petista não circula no vazio. Ela aparece depois de semanas de tensão no campo bolsonarista, marcado por cobranças públicas entre aliados, disputa por protagonismo em 2026 e ataques à chamada “direita permitida”. O pano de fundo é a reorganização da direita em torno de Flávio, cujo nome já aparece em pesquisas nacionais contra Lula para a próxima eleição presidencial.
Michelle vira alvo de duas frentes
A imagem também entrou na guerra de narrativas entre petistas e bolsonaristas. Para aliados de Flávio, a montagem questiona a lealdade política de Michelle. Para adversários do PT, o material reforça a leitura de que há um racha real dentro da direita. Nos dois casos, a ex-primeira-dama deixa de ser apenas porta-voz de uma agenda conservadora e passa a ser usada como símbolo da disputa pelo comando do bolsonarismo.
O efeito político é direto. Michelle era uma das peças mais importantes do PL para ampliar a presença da legenda entre mulheres, segmento decisivo para qualquer candidatura presidencial. Ao virar personagem de meme produzido e distribuído no próprio campo, ela perde espaço como ponto de convergência e passa a representar uma fissura que o partido ainda não conseguiu administrar publicamente.
Sem uma intervenção capaz de recompor a relação, a crise deixa o PL com um problema duplo: preservar Michelle como ativo eleitoral e impedir que a disputa familiar contamine a pré-campanha de Flávio. Por ora, a figurinha consolida o novo estágio do conflito — a briga saiu das declarações e entrou na máquina de mobilização digital da direita.










