David Hockney morreu aos 88 anos e deixa uma das obras mais reconhecíveis da arte contemporânea: piscinas azuis, fachadas geométricas, corpos em repouso e paisagens californianas tratadas com cores tão intensas que se tornaram uma assinatura. A morte do artista britânico foi informada nesta sexta-feira (12), após uma carreira de mais de seis décadas marcada por pintura, desenho, fotografia, colagem e experimentação digital.
Nascido em Bradford, no norte da Inglaterra, em 1937, Hockney ganhou projeção nos anos 1960, depois de estudar no Royal College of Art, em Londres. Ele atravessou a pop art britânica sem ficar preso a ela: absorveu a linguagem gráfica do período, mas construiu uma obra própria, mais luminosa, íntima e narrativa, em que cenas domésticas, retratos de amigos e paisagens urbanas carregavam uma ideia de liberdade visual.
A mudança para Los Angeles foi decisiva. Na Califórnia, Hockney encontrou a luz, o espaço e a arquitetura que moldariam sua imagem pública. Em obras como A Bigger Splash, de 1967, e Portrait of an Artist (Pool with Two Figures), de 1972, ele transformou o lazer californiano em composição rigorosa: a água parada ou recém-agitada, as linhas retas das casas, o céu limpo e a tensão silenciosa entre presença e ausência.
O artista que deu forma à luz da Califórnia
As piscinas de Hockney nunca foram apenas piscinas. Elas funcionavam como palco, espelho e superfície pictórica. O artista usava a água para testar movimento, transparência e reflexo, mas também para capturar uma ideia de modernidade associada ao sul da Califórnia: casas abertas, corpos ao sol, desejo, juventude e uma promessa de vida livre que a pintura convertia em imagem precisa.
Essa combinação fez de Hockney um nome popular sem reduzir sua importância artística. Ele aproximou a pintura figurativa de uma sensibilidade pop, mas manteve o interesse por temas clássicos: retrato, paisagem, perspectiva, cor e observação. Ao longo da carreira, voltou repetidas vezes a amigos, amantes, interiores, jardins e estradas, sempre com atenção ao modo como o olhar organiza o mundo.
Hockney também teve papel simbólico em uma geração que ampliou os limites da arte britânica do pós-guerra. Aberto sobre sua homossexualidade em um período menos receptivo à exposição pública da vida gay, ele levou intimidade, desejo e afeto para uma obra que evitava tanto o panfleto quanto a neutralidade. Seus retratos e cenas de convivência ajudaram a dar visibilidade a formas de vida que raramente ocupavam posição central na pintura de grande circulação.
Da pintura ao iPad, Hockney fez da reinvenção um método
A longevidade de Hockney não se explica apenas pelas imagens dos anos 1960 e 1970. Ele atravessou décadas incorporando novas ferramentas sem abandonar a observação direta. Fez fotomontagens, explorou múltiplos pontos de vista, produziu paisagens monumentais e, mais tarde, adotou o iPad como instrumento de desenho, tratando a tela digital como extensão natural do caderno e da pintura.
Nos últimos anos, grandes exposições mantiveram sua obra no centro do circuito internacional. A mostra David Hockney 25, apresentada pela Fondation Louis Vuitton, em Paris, em 2025, reforçou a dimensão de um artista que não se acomodou ao próprio repertório. Em vez de viver apenas da iconografia das piscinas, Hockney insistiu em produzir, testar formatos e defender a vitalidade da imagem feita à mão, mesmo em diálogo com a tecnologia.
A causa da morte não foi divulgada. Também não havia, nesta sexta, anúncio público sobre cerimônia ou homenagens oficiais. O dado concreto, para o mundo da arte, é que a morte de Hockney encerra uma trajetória rara: a de um artista que saiu da Inglaterra industrial, encontrou na Califórnia uma gramática de cor e luz e transformou essa paisagem em um dos vocabulários visuais mais duradouros do século 20.











