O Brasil colheu a maior safra de grãos de sua história na temporada 2025/26, mas o produtor rural enfrenta um cenário de preços em queda que ameaça a rentabilidade do setor. O contraste entre o recorde de produção e a desvalorização das commodities, especialmente do milho, expõe as dificuldades do campo em um momento de custos elevados e crédito escasso.
Safra recorde de 357,97 milhões de toneladas
O 8º levantamento da safra de grãos 2025/26, divulgado pela Conab em maio, confirmou um novo recorde histórico: 357,97 milhões de toneladas, um crescimento de 1,6% em relação à safra anterior. O resultado foi impulsionado principalmente pela soja, que atingiu 180,1 milhões de toneladas, a maior marca da série histórica da estatal.
O desempenho da oleaginosa reflete tanto o aumento de área plantada quanto a produtividade acima da média em importantes regiões produtoras. A demanda aquecida, tanto no mercado interno quanto externo, sustenta as expectativas do setor. As exportações de soja devem alcançar 116 milhões de toneladas, alta de 7,25% sobre o ciclo anterior, com liquidez elevada registrada em junho e forte procura da indústria doméstica.
O algodão também contribuiu para o bom desempenho do campo. As exportações da pluma cresceram 6,6% nos primeiros quatro meses do ano, totalizando 1,3 milhão de toneladas embarcadas, impulsionadas pela retomada das compras da China, principal parceiro comercial do Brasil no setor.
Milho: preço no menor nível em oito meses
Se a produção é motivo de celebração, os preços do milho acendem o sinal de alerta. A segunda safra do cereal, estimada em 108,5 milhões de toneladas (ligeira queda de 0,6% ante a safra anterior), enfrenta um mercado desfavorável. Na semana de 28 de maio a 3 de junho, o preço da saca de milho em Sorriso (MT), um dos principais polos produtores do país, caiu 3,2%, atingindo R$ 43,91 — o menor valor nominal em oito meses.
A paridade de exportação, referência para o mercado interno, está em R$ 62,10 por saca, mas o preço efetivamente pago ao produtor está muito abaixo desse patamar. A desvalorização é reflexo direto das baixas registradas na Bolsa de Chicago (CBOT), que pressionam as cotações domésticas. Com a colheita da segunda safra avançando, os compradores se mantêm afastados, aguardando preços ainda menores, o que agrava a situação dos agricultores.
Custos altos e crédito escasso travam o planejamento
O cenário de preços baixos ocorre em um momento particularmente delicado para o produtor rural. Os custos de produção seguem elevados, pressionados por insumos como fertilizantes e defensivos, além do frete e da energia. Ao mesmo tempo, os preços recebidos pelo agricultor ficam abaixo do esperado, comprimindo as margens.
A dificuldade de acesso ao crédito rural, seja por linhas oficiais ou bancárias, adiciona mais um obstáculo. Muitos produtores encontram dificuldades para financiar o custeio da próxima safra, o que pode impactar o plantio e a produtividade futura. A combinação de safra recorde com rentabilidade em queda cria um paradoxo que preocupa lideranças do setor.
O paradoxo do campo brasileiro
A situação atual expõe um dilema estrutural do agronegócio brasileiro: o país produz mais do que nunca, mas o produtor não consegue transformar essa abundância em lucro. Enquanto a soja mantém preços relativamente firmes, amparada pela demanda externa, o milho sofre com a oferta global ampla e a desaceleração da economia chinesa, que reduz o apetite por importações.
Para a próxima safra, os desafios se acumulam. O produtor precisa decidir o que plantar com base em um cenário de incertezas: preços baixos, custos altos e crédito restrito. A tendência é de cautela, com possível redução de área para culturas de menor rentabilidade e maior aposta em cultivos com demanda mais garantida, como a soja.
O governo federal, por meio da Conab e do Ministério da Agricultura, monitora a situação e estuda medidas de apoio, como a ampliação de linhas de crédito e a equalização de preços mínimos. No entanto, o espaço fiscal é limitado, e as soluções de curto prazo podem não ser suficientes para evitar perdas significativas para os agricultores.
Perspectivas para o segundo semestre
O mercado de grãos deve continuar volátil nos próximos meses. A colheita da segunda safra de milho, que está em pleno andamento, tende a aumentar a pressão sobre os preços, especialmente se o clima colaborar e a produtividade superar as expectativas. Do lado da demanda, a indústria de rações e a produção de proteína animal (frango, suínos e bovinos) devem manter o consumo interno aquecido, mas sem capacidade de absorver toda a oferta a preços remuneradores.
Para a soja, o foco está na evolução das exportações e no comportamento do câmbio. O real desvalorizado favorece as vendas externas, mas a dependência do mercado chinês continua sendo um fator de risco. Qualquer sinal de desaceleração na economia da Ásia pode derrubar as cotações e comprometer a rentabilidade da safra recorde.
O produtor brasileiro, mais uma vez, demonstra sua capacidade de produzir em escala, mas o sucesso no campo não se traduz automaticamente em sucesso financeiro. A equação entre custo, preço e crédito será o grande desafio para a próxima safra, em um ano que já entra para a história como o da maior colheita de grãos do país.











