SÃO PAULO – O filme Backrooms: Um Não-Lugar, da A24, estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira passada (28) como a mais ambiciosa adaptação de uma creepypasta – termo que designa as narrativas de terror nascidas e reescritas coletivamente em fóruns anônimos da internet. Dirigido por Kane Parsons, de 20 anos, o longa transpõe para a tela a lenda colaborativa que circula desde 2019. O elenco reúne Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão) e Renate Reinsve, indicada ao Oscar de melhor atriz em 2026 por A Pior Pessoa do Mundo. A produção tem 87% de aprovação no agregador Rotten Tomatoes, com 110 análises computadas.
A semente digital do medo
A história dos Backrooms começa em 2019, no fórum /x/ do 4chan, dedicado a discussões sobre fenômenos paranormais. Um usuário anônimo publicou a fotografia de um escritório vazio, com carpete amarelado, paredes beges e iluminação fluorescente ligeiramente esverdeada – imagem que evocava um espaço liminar, fora do tempo. A legenda sugeria que, ao “noclippar” (glitchar) a realidade, a pessoa cairia nas Backrooms, uma dimensão de corredores intermináveis, úmida e com cheiro de carpete velho, sem saída aparente. Em pouco tempo, o post foi replicado em comunidades do Reddit e do Discord, que acrescentaram camadas e regras à mitologia.
O termo “creepypasta” – fusão de creepy (assustador) e copypasta (texto copiado e colado) – designa esse tipo de história, que se espalha de forma viral e é constantemente reescrita por anônimos. Antes das Backrooms, personagens como Slender Man e Jeff the Killer já haviam pavimentado o caminho para o horror nascido na cultura digital. A diferença está na arquitetura do medo: as Backrooms dispensam o monstro clássico e apostam na angústia do infinito, na repetição alienante de um ambiente corporativo desprovido de propósito.
Do YouTube para Hollywood
Em 2022, ainda adolescente, Kane Parsons transformou o mito em narrativa audiovisual. Com recursos mínimos, publicou no YouTube um curta em found footage em que um cinegrafista, durante uma gravação trivial, atravessa acidentalmente o limiar para as Backrooms. O vídeo viralizou e somou dezenas de milhões de visualizações. A partir dali, Parsons construiu uma websérie com mais de 20 episódios, ampliando o universo – com regras de entrada e níveis que variam de escritórios abandonados a piscinas vazias e hospitais assépticos – até atrair a A24, estúdio independente que se tornou sinônimo de terror autoral de prestígio.
Aos 20 anos, Parsons torna-se o cineasta mais jovem a assinar um filme da A24, responsável por títulos como Hereditário, O Farol e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. A escolha alinha o longa à curadoria que consolidou o estúdio como vitrine de diretores como Ari Aster e Robert Eggers.
Estreia e repercussão
Em crítica publicada em O Tempo, Diego Almeida classificou Backrooms: Um Não-Lugar como “um dos terrores mais inquietantes do ano”, destacando a forma como o filme transforma o vazio do espaço liminar em motor de tensão. O selo “Certified Fresh” do Rotten Tomatoes – concedido quando o índice de aprovação ultrapassa 75% com número significativo de análises – reforça a recepção positiva.
A sinergia entre a comunidade online que alimenta a creepypasta e o aparato de um estúdio de prestígio cria um caso raro de retroalimentação: a lenda que nasceu nos porões anônimos da internet agora ocupa os multiplexes e passa a ter espectadores que jamais pisaram no 4chan.
Patrimônio digital em expansão
O fenômeno das creepypastas, com as Backrooms como representante mais recente, documenta uma transformação na maneira como o terror é criado e consumido. Não há um autor central, mas uma curadoria coletiva que se apropria, recorta e multiplica significados. A adaptação para o cinema funciona, ao mesmo tempo, como ponto de chegada e novo vetor de disseminação: o mito agora circula em escala industrial, sem perder a marca anônima da origem.











