A investigação do Ministério Público Federal (MPF) sobre as cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no século XIX ganhou um novo capítulo com a ampliação das exigências à Caixa Econômica Federal. O órgão considera insuficiente o levantamento inicial do banco, que localizou 158 contas daquele período, e agora cobra informações detalhadas sobre o destino dos valores depositados — um esforço que testa os limites dos sistemas de dados da instituição financeira.
A intimação original do MPF foi emitida em 29 de agosto de 2025, mas o caso só veio a público em outubro do mesmo ano, quando o órgão recomendou que a Caixa identificasse especificamente as poupanças usadas para comprar alforrias. Agora, o MPF classifica a resposta do banco como insuficiente e exige a ampliação da apuração, mirando o destino dos recursos que, segundo estimativas de mercado, podem superar a casa dos milhões de reais em valores atualizados.
Mineração de patrimônio documental
O rastreamento dessas contas é um desafio tecnológico que expõe a fragilidade dos arquivos históricos. A Caixa, fundada em 1861, operava com registros manuais em livros-caixa, muitos perdidos ou deteriorados ao longo dos séculos. A localização das 158 cadernetas exigiu uma força-tarefa interna que cruzou microfilmagens antigas com bases de dados modernas, um processo que o banco descreveu internamente como “mineração de patrimônio documental” — mas que o MPF agora quer ver estendido a todo o período escravocrata.
O órgão federal também investiga o Banco do Brasil por sua dívida histórica relacionada à escravidão. Em 2023, a instituição reconheceu publicamente o uso de mão de obra escravizada e pediu desculpas, abrindo um precedente para que outras empresas financeiras revisem seus arquivos. A ação do MPF na Caixa é a primeira a forçar um banco a escarafunchar séculos de dados para quantificar uma dívida que a História nunca cobrou.
Transparência e reparação: o que está em jogo
A cobrança por transparência vai além do valor monetário. Para descendentes, as poupanças representam um símbolo da luta por liberdade em um sistema que criminalizava a autonomia financeira dos escravizados. A Caixa informou que colabora com as investigações, mas não divulgou prazos para a entrega dos novos dados. Enquanto isso, o MPF mantém o caso sob sigilo, alegando que a complexidade do levantamento exige cautela.
O desfecho da investigação pode criar jurisprudência para reparações históricas no Brasil, forçando instituições financeiras a prestar contas por lucros obtidos durante a escravidão. “Não se trata apenas de dinheiro, mas de reconhecer que a tecnologia de dados pode finalmente dar nome e sobrenome a essas vítimas”, disse uma fonte próxima ao procurador responsável pelo caso, que pediu anonimato.
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