Seis em cada dez CEOs de empresas familiares no Brasil recebem mais de R$ 1 milhão por ano, segundo estudo do Evermonte Institute divulgado neste domingo (21). O número coloca o comando de grupos controlados por famílias no mesmo patamar de discussão das grandes companhias profissionalizadas: quanto pagar para atrair liderança, cobrar desempenho e preservar a continuidade do negócio.
A cifra chama atenção porque empresas familiares ocupam espaço central na economia brasileira, de negócios médios a grandes grupos empresariais. Nelas, o cargo de CEO pode estar nas mãos de um herdeiro, de um fundador ainda à frente da operação ou de um executivo contratado no mercado. Cada modelo muda a leitura sobre remuneração: em um caso, o pagamento pode se misturar à dinâmica patrimonial da família; no outro, tende a seguir parâmetros de mercado para cargos de alta gestão.
O patamar de R$ 1 milhão por ano equivale a mais de R$ 83 mil por mês em uma divisão simples por 12 parcelas. A conta não resolve a principal dúvida sobre o pacote, mas dimensiona o tamanho da despesa para a companhia e da responsabilidade atribuída ao cargo. Em empresas de menor porte, esse valor pesa diretamente no orçamento administrativo. Em grupos maiores, costuma ser tratado como instrumento de retenção, alinhamento de metas e proteção da sucessão.
Salário milionário pressiona governança familiar
O debate vai além do contracheque. Em empresas familiares, a remuneração do principal executivo funciona como teste de governança. Quando a companhia paga um pacote milionário, precisa deixar claro o que está comprando: capacidade de gestão, entrega de resultado, experiência setorial, transição geracional ou simples permanência de um integrante da família no comando.
Essa distinção é decisiva porque salário executivo e renda de sócio não são a mesma coisa. O salário remunera trabalho, cobrança e responsabilidade operacional. Dividendos e distribuição de lucros remuneram capital investido e participação societária. Quando as duas coisas se confundem, a empresa perde referência para avaliar desempenho, comparar custos e explicar a política de pagamentos a outros herdeiros, conselheiros, credores ou investidores.
O dado também reforça uma mudança no mercado de liderança. O controle familiar já não significa, necessariamente, gestão informal ou remuneração abaixo da praticada por companhias abertas, multinacionais e grupos de capital pulverizado. Para competir por executivos experientes, empresas familiares precisam oferecer pacotes capazes de disputar talento com organizações mais estruturadas — e, ao mesmo tempo, amarrar esses pagamentos a metas verificáveis.
CEO familiar e executivo de mercado têm leituras diferentes
A origem do CEO muda o peso político do pagamento. Quando o presidente é membro da família controladora, a remuneração precisa separar com mais rigor a função executiva da condição de herdeiro ou sócio. Sem essa fronteira, o valor pode ser visto internamente como privilégio patrimonial, e não como contrapartida por gestão.
Quando o cargo é ocupado por um profissional de mercado, o pacote milionário costuma ter outra justificativa: atrair alguém capaz de organizar processos, profissionalizar decisões, preparar sucessores e reduzir a dependência da figura do fundador. Nesse cenário, pagar mais pode ser uma tentativa de blindar a empresa contra improvisos na transição entre gerações.
O ponto sensível está na composição da remuneração. R$ 1 milhão em salário fixo tem efeito diferente de R$ 1 milhão formado por bônus, benefícios, remuneração variável, planos de longo prazo ou participação em resultados. Sem essa abertura, o número mostra a força do topo da gestão, mas não permite concluir quanto é pagamento recorrente, quanto depende de desempenho e quanto se aproxima de retorno societário.
Profissionalização exige meta, conselho e transparência
Para a empresa familiar, a pergunta central não é apenas se R$ 1 milhão por ano é muito ou pouco. A questão é se o pacote está ligado a metas de crescimento, margem, geração de caixa, sucessão, expansão de mercado ou preservação do patrimônio. Sem indicadores objetivos, o pagamento vira custo difícil de defender. Com metas claras, pode funcionar como ferramenta de profissionalização.
Esse tipo de decisão costuma exigir conselho atuante, política formal de remuneração e regras para familiares que trabalham na companhia. A ausência desses mecanismos aumenta o risco de conflito entre parentes, principalmente quando parte da família participa da gestão e outra parte aparece apenas como sócia. Quanto maior o pacote do CEO, maior a necessidade de explicar por que aquele valor faz sentido para a empresa — e não apenas para quem ocupa o cargo.
A divulgação do Evermonte Institute não detalha amostra, período analisado, recorte por setor, porte das companhias nem composição dos pagamentos. Por isso, o percentual deve ser lido como retrato de uma faixa de alta gestão, não como salário típico de toda empresa familiar brasileira.
O que o dado já revela é uma disputa cada vez mais explícita: empresas familiares querem preservar controle e identidade, mas precisam pagar — e cobrar — como organizações profissionalizadas quando colocam executivos no centro da estratégia.









