O escritor e jornalista Raimundo Carrero morreu nesta terça-feira (16), aos 78 anos, no Recife. Ele estava internado havia uma semana no Hospital Esperança, na Ilha do Leite, e tratava um câncer, segundo comunicado da família. O tipo da doença não foi informado.
A morte encerra a trajetória de um dos nomes mais reconhecidos da literatura pernambucana contemporânea. Carrero construiu uma obra marcada pelo diálogo entre romance, jornalismo, cultura popular e experimentação narrativa, além de ter integrado o ambiente do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna nos anos 1970 para aproximar a arte erudita brasileira das matrizes populares do Nordeste.
O velório está marcado para o meio-dia na Academia Pernambucana de Letras, instituição da qual Carrero era membro desde 2004. O sepultamento está previsto para as 16h, no Cemitério de Santo Amaro, também no Recife.
Do jornalismo à ficção premiada
Nascido em Salgueiro, no sertão de Pernambuco, em dezembro de 1947, Carrero começou a carreira no Diário de Pernambuco em 1969. Permaneceu por 25 anos no jornal, período em que se consolidou como repórter, cronista e observador da vida cultural do estado.
A experiência na imprensa atravessou sua literatura. Seus romances exploraram personagens em conflito, atmosferas sertanejas e urbanas e uma linguagem de forte tensão dramática. Em 2000, o reconhecimento nacional veio com o Prêmio Jabuti por As sóbrias ruínas da alma, uma das obras centrais de sua produção.
Ao lado da ficção, Carrero também se tornou referência como formador de escritores. Sua atuação em oficinas literárias ajudou a influenciar gerações de autores em Pernambuco e fora do estado, ampliando sua presença para além dos livros publicados.
Armorial, cultura popular e Perna Cabeluda
Na década de 1970, Carrero circulou no núcleo intelectual ligado ao Movimento Armorial, projeto que tinha Ariano Suassuna como principal idealizador. A proposta buscava criar uma arte brasileira de ambição erudita sem romper com o romanceiro popular, a literatura de cordel, a música regional, o teatro e os símbolos do imaginário nordestino.
Esse interesse pela fronteira entre invenção literária e cultura popular também aparece em sua ligação com a Perna Cabeluda, lenda urbana que entrou no folclore moderno do Recife. Carrero é apontado como um dos criadores da personagem, que se tornou parte da memória afetiva e fantástica de Pernambuco.
A eleição para a Academia Pernambucana de Letras, em 2004, consolidou o lugar institucional de Carrero na vida literária do estado. A despedida pública ocorrerá justamente na sede da entidade, antes do enterro marcado para a tarde desta terça-feira no Cemitério de Santo Amaro.











