Doze anos. É há mais de uma década que Piracicaba não elege um deputado federal — e é nesse vácuo que Paulo Roberto de Campos, o Paulo Campos, decidiu apostar a próxima fase da carreira. Advogado formado pela Unimep, nascido na cidade em 27 de março de 1980, ele cumpriu três mandatos seguidos de vereador, eleito em 2012, 2016 e 2020. Aos 46 anos, apresenta-se agora como pré-candidato a deputado federal pelo Solidariedade, com um discurso colado na periferia e na ideia de “representatividade” da região em Brasília.
Em entrevista ao PIRANOT, Campos detalha pela primeira vez o projeto para 2026. Fala em “mais de uma centena de grupos de apoio” espalhados pela Região Metropolitana e mira o eleitorado dos bairros — a base que, diz, o levou à Câmara por três eleições. As respostas a seguir estão na íntegra.
Da Câmara Municipal à aposta em Brasília
Após sua trajetória na Câmara Municipal, o que motivou a decisão de disputar uma vaga para deputado federal?
Paulo Campos — “Creio que já cumpri minha missão como vereador em Piracicaba, sendo sempre um dos mais votados por três eleições. Aprendi muito, ajudei muita gente que me procurou. Contudo, sinto que, pela manifestação de muitos amigos, tenho potencial para outros voos maiores, em favor de Piracicaba. Por isso, a colocação da minha pré-candidatura a deputado federal esse ano, pelo Partido Solidariedade.”
“Creio que já cumpri minha missão como vereador em Piracicaba, sendo sempre um dos mais votados por três eleições.”
Paulo Campos
Quais experiências como vereador o senhor acredita que podem contribuir em Brasília?
Paulo Campos — “A experiência na Câmara Municipal me ensinou a, prioritariamente, ouvir as demandas da população, das organizações sociais, populares, institucionais de nossa cidade. Passei também, como membro, de várias das Comissões que compõem o legislativo, educação, saúde, finanças, legislação, onde os conteúdos técnicos impõem padrões muito rigorosos. Minha formação como advogado contribuiu muito para que eu auxiliasse os colegas e os prefeitos da época a exercerem seus pedidos de forma adequada. Essa será uma experiência positiva que também levarei comigo para Brasília.”
A Região Metropolitana de Piracicaba foi criada por lei estadual em 2021 e reúne 24 municípios e cerca de 1,5 milhão de habitantes. É esse o território que Campos diz querer representar.
As bandeiras e o diagnóstico da cidade
Quais serão as principais bandeiras da sua pré-campanha para deputado federal?
Paulo Campos — “Estou construindo um planejamento com apoio de muitas lideranças políticas, sociais, religiosas, da Região Metropolitana de Piracicaba. E outras de cidades ainda mais distantes. Já tenho mais de uma centena de grupos de apoios em inúmeras cidades. E já estamos mapeando também inúmeros apoiadores, que me seguem desde eleições anteriores, para trabalharmos em Piracicaba. Tenho minha identidade política construída especialmente a partir das populações mais pobres e necessitadas de nossa cidade. E será, especialmente para elas, que dedicarei meus esforços em Brasília para trazermos recursos para áreas essenciais, como saúde, segurança, educação, entre outras.”
Como o senhor avalia hoje os principais problemas enfrentados por Piracicaba e região?
Paulo Campos — “Piracicaba é um microuniverso dentro do estado de São Paulo, com seus edifícios altos e luxuosos e suas 78 favelas, onde mora grande parte da nossa população. Uma cidade culta, cuja cultura precisa ser valorizada e difundida, com grandes instituições educacionais, um time de futebol querido por todos nós e pelos torcedores paulistas, o XV de Piracicaba, enfim, uma cidade moderna, acolhedora. Mas que precisa de mais e mais recursos para manter sua máquina pública funcionando a serviço de todos. Estamos já há 12 anos sem conseguirmos eleger um deputado federal. Quem sabe, com o meu trânsito por Piracicaba e região, conseguimos, dessa vez, nos aproximarmos mais de Brasília e de seus desafios por lá.”
“Piracicaba é um microuniverso: edifícios altos e luxuosos e 78 favelas, onde mora grande parte da nossa população.”
Paulo Campos
Caso eleito, quais áreas terão prioridade no seu mandato: saúde, segurança, infraestrutura, educação ou geração de empregos?
Paulo Campos — “Esses serão os desafios básicos, mas pretendo também trabalhar intensamente para a diminuição das diferenças sociais em nossa cidade, possibilitando aos mais necessitados condições de vida em igualdade às que possuem boa parte dos moradores da cidade.”

O último deputado federal nativo de Piracicaba citado pelo próprio entrevistado é Antonio Carlos Mendes Thame, que representou a região no Congresso por sucessivos mandatos. Desde então, segundo Campos, a cidade ficou sem voz própria em Brasília.
Doze anos sem deputado: a lacuna que quer preencher
O senhor acredita que Piracicaba e a região precisam de maior representatividade política em Brasília? Por quê?
Paulo Campos — “Na nossa região, só Limeira, recentemente, conseguiu ter um deputado federal. Creio que falta uma articulação melhor e talvez tenha faltado empenho aos nossos dirigentes, para conseguirmos a eleição de um piracicabano da gema para nos representar em Brasília. Nossos ex-deputados, José Machado, era de Tanabi; João Herrmann, de Cosmópolis; só Adilson Maluf e Mendes Thame eram nativos. E eu, como nativo, filho da periferia, hoje reúno condições políticas, profissionais e de saúde, estou com apenas 46 anos de vida, para bem representar nossa cidade. E cobrir essa lacuna de mais de uma década sem representação oficial no centro do poder do nosso país.”
“Como nativo, filho da periferia, hoje reúno condições políticas, profissionais e de saúde para bem representar nossa cidade.”
Paulo Campos
Como pretende buscar recursos federais para Piracicaba e cidades vizinhas?
Paulo Campos — “A região Metropolitana tem que se pensar de forma plural. O que for bom e essencial para Piracicaba, haverá de ser bom e ótimo para as demais cidades incluídas na nossa região. Os problemas, desafios e prioridades são comuns a todas elas, nos planos da segurança pública, educação, saúde, saneamento básico, entre outros. Quero ser o porta-voz de todos, o abridor de portas em Brasília nos Ministérios e agências, para criarmos melhores condições de vida para os mais de 1,5 milhão de moradores deste microuniverso do Estado de São Paulo.”
A eleição de 2026 está marcada para 4 de outubro, quando o eleitor escolhe deputados federais e estaduais, senadores, governadores e presidente. Estreante em disputa majoritária federal, Campos se diz “marinheiro de primeira viagem”.
Política, juventude e o Congresso
O cenário político mudou muito nos últimos anos. Como o senhor enxerga a relação da população com a política atualmente?
Paulo Campos — “Mesmo que haja uma boa dose de desencanto com os rumos da política nacional, temos que acreditar que em 2026 conseguiremos reverter o quadro de adversidades, construir novos padrões de ação política, tranquilizar todos os setores da população, dos empreendedores e dos mais necessitados, para que tenhamos um Brasil mais justo, solidário e fraterno.”
Quais críticas e aprendizados o senhor leva da sua passagem pelo Legislativo municipal?
Paulo Campos — “Creio que o maior desafio para quem quer participar da política hoje em dia seja a resiliência. Não podemos perder a calma em nenhum instante, precisamos dialogar, trialogar, multidialogar com todos os setores interessados em contribuir com o desenvolvimento das nossas cidades.”
Como o senhor pretende dialogar com os jovens e conquistar o eleitorado mais novo?
Paulo Campos — “A juventude é o esteio do nosso futuro. Tenho um filho de 13 anos e, através dele, aprendo não só as novidades da geração tecnológica, mas dos sonhos e desafios que o aguardam mais adiante. Ele frequenta hoje uma excelente escola particular em nossa cidade, graças à generosidade de sua diretora. Mas como ele, me deparo, por onde caminho, pelas ruas da cidade, igrejas que frequento, espaços públicos e privados, um sem-número de jovens em busca de uma orientação com os ‘mais velhos’, como eu. Querem construir o futuro, espelhados também nos nossos cabelos já brancos. A nossa experiência certamente os conduzirá a dias melhores e a cidades mais justas e a um país mais fraterno. São os meus sinceros desejos.”
Em sua opinião, quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelo Brasil no Congresso Nacional?
Paulo Campos — “O Congresso Nacional a ser eleito representará a vontade popular da Nação, através dos votos a serem depositados em 4 de outubro. Embora estejamos vivendo uma situação difícil de polarização, creio que, quando vamos para o patamar do Senado e da Câmara Federal, o resultado poderá ser diferenciado. Espero que para melhor. Quero representar de forma digna os anseios de Piracicaba e região. Mesmo sendo ‘marinheiro de primeira viagem’, já participei recentemente da CPMI do INSS, onde fui muito bem acolhido por consagradas lideranças que por lá passaram naqueles dias. Hoje já faço parte do diretório nacional do Solidariedade, a convite do nosso presidente Paulinho da Força, espero, igualmente, contribuir para o fortalecimento do nosso partido não só em São Paulo, mas nas demais unidades da federação.”
“Mesmo sendo ‘marinheiro de primeira viagem’, já participei recentemente da CPMI do INSS.”
Paulo Campos
Campos integra o diretório nacional do Solidariedade, partido presidido pelo deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força. É sob essa legenda que pretende disputar a vaga.
A mensagem ao eleitor
Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os eleitores que acompanham sua possível candidatura a deputado federal?
Paulo Campos — “Piracicaba perdeu, nos últimos 12 anos, bilhões em recursos, por não ter um deputado federal lutando diretamente por ela lá em Brasília. Votar num piracicabano da gema, nascido, criado e crescido aqui nas barrancas do Rio Piracicaba, a meu juízo, será um gesto de grandeza, de fortalecimento da política local, na certeza de que contarão com um trabalhador incansável pelas causas públicas de nossa cidade e região. E chamando a sardinha para minha negritude, ‘Negros de Piracicaba e região, uni-vos!!!'”
“Piracicaba perdeu, nos últimos 12 anos, bilhões em recursos, por não ter um deputado federal lutando diretamente por ela lá em Brasília.”
Paulo Campos

Análise do editor: Júnior Cardoso
A espinha da conversa é uma conta: “bilhões” que Piracicaba teria perdido em 12 anos sem deputado federal próprio. É um número de campanha — Campos não apresenta metodologia, e o valor funciona mais como bandeira do que como cálculo. O dado verificável por trás dele é mais modesto: a região, de fato, não elege um representante nativo desde a saída de Mendes Thame, citado pelo próprio entrevistado.
O resto do programa ainda é silhueta. Saúde, segurança, educação e geração de emprego são prioridades que praticamente toda pré-candidatura assina. O que diferencia o discurso de Campos não é a pauta, e sim a narrativa: o apelo de “filho da periferia”, a menção às 78 favelas e o fecho identitário voltado à população negra — territórios eleitorais que ele conhece de três campanhas vitoriosas para vereador.
O teste virá em 4 de outubro. A aposta tem risco embutido: quem foi “sempre um dos mais votados” na Câmara troca o terreno conhecido pelo voto pulverizado de uma disputa estadual. Se a articulação metropolitana que ele descreve sair do papel e virar voto, é a pergunta que esta pré-candidatura ainda precisa responder.
