Luciano Guidotti: o prefeito que revolucionou Piracicaba

Na década de 60, Piracicaba foi uma cidade destaque em todo o país; não à toa, ganhamos das mãos do então presidente Juscelino Kubitschek o título de cidade mais progressista do Brasil. E tudo isso só tornou-se possível graças aos esforços de uma pessoa: Luciano Guidotti.

Luciano Guidotti recebendo o prêmio de “Município Brasileiro de Maior Progresso” das mãos do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Foto: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP).

O comendador Luciano Guidotti revolucionou a cidade durante seus dois mandatos, de 1956 a 1959 e de 1964 a 1968 (ano de sua morte). Semi-analfabeto, porém de grande vivência e, acima de tudo, visionário, as obras que ele construiu fizeram dele um merecedor de títulos.

Foi o comendador Luciano Guidotti quem canalizou o córrego Itapeva e construiu a Avenida Armando de Salles Oliveira… foi ele quem construiu também o Teatro Municipal de Piracicaba, elevando o município a um nível de destaque não apenas social, mas acima de tudo cultural; as avenidas Saldanha Marinho, Carlos Botelho, Centenário, Cássio Paschoal Padovani foram todas construídas durante seus mandatos. Em 1965, construiu e inaugurou o Estádio Municipal Barão de Serra Negra — casa do XV de Piracicaba, fazendo do time um dos primeiros do interior na época a possuir um estádio.

No final da década de 50 e começo de 60, destruiu o parque beira rio (projetado por Luiz de Queiroz) e construiu o Hotel Beira Rio. Ali próximo, construiu também quatro pontes sobre o Rio Piracicaba, facilitando o deslocamento dos piracicabanos pela cidade. Não à toa, inclusive, dizem que foi Luciano quem mais revolucionou o cenário urbano da cidade.

Infância

Filho primogênito de Nazareno Guidotti e Ana Maria Radicchi Guidotti, imigrantes italianos da comune de Bolsena (província de Lazio), Luciano Guidotti nasceu em 13 de dezembro de 1903, na cidade de Avaré. Seu nascimento deu-se apenas seis anos após a chegada de seus pais ao país.

Seu pai, Nazareno, acabou sendo assassinado em Avaré e isso fez com que Luciano e seus irmãos tivessem de se virar desde cedo. Ainda menor de idade, Luciano cuidava dos negócios deixados pelo pai, enquanto a mãe cuidava das prendas domésticas e do sítio.

Luciano só veio à cidade Piracicaba no ano de 1929, ao adquirir um imóvel no centro, mais precisamente na Rua Governador Pedro de Toledo, próximo à praça. E devagar começou a dar os seus primeiros passos pela cidade. Sua primeira loja por aqui foi a Loja dos Dois Mil Réis, na esquina da Governador com a Rua Dom Pedro I.

Anos mais tarde, criou na esquina da Governador com a Rua São José a famosa “Casa Guidotti”, loja que se tornaria a revendedora dos caminhões GMC aqui na cidade. E o prefeito viu sua fortuna se multiplicar pouco tempos depois, quando adquiriu créditos com João Goulart, o “Jango”, e tornou-se um dos maiores representantes da GMC.

E o talento de Guidotti não se limitava apenas aos empreendimentos, ele tinha talento também para tocar seus negócios com jeito ousado. Luciano era engajado. Em 1951, tornou-se presidente do Lar dos Velhinhos e passou a ajudar a instituição de todas as formas possíveis, inclusive financeiramente, doando partes de seu salário ao lar.

Filho de imigrantes italianos, e, por conta disso, católico fervoroso, Luciano Guidotti prestou assistência também na construção da Catedral de Santo Antônio, na praça José Bonifácio.

Enquanto construía suas obras, era comum aparecer de carro, sem qualquer aviso prévio, para flagrar se os construtores trabalhavam do jeito certo. Se pegava os construtores trabalhando, tecia elogios; caso contrários, demitia-os ainda na obra e de maneira autoritária. Era comum também o prefeito deixar o carro em uma obra e ir a pé para outra a fim de monitorar os trabalhadores. Esse punho de ferro, característica inerente ao prefeito, foi o mesmo punho de ferro responsável por tocar diversas obras pela cidade de maneira ímpar.

Ainda nos primeiros anos da década de 60 — a fim de manter de pé sua áurea de cidade progressista –, Piracicaba começou a construção de outro grande ousado projeto: a construção do Edifício Luiz de Queiroz (o Comurba, como ficou popularmente conhecido, graças à abreviação de “Companhia Melhoramentos Urbanos”, o nome da construtora).

Com a queda do edifício, em 06 de novembro de 64, que culminou em dezenas de mortos, a tragédia de Piracicaba se projetou a nível internacional. Da Itália, o então papa mandou mensagens de paz. O governador Adhemar de Barros saiu da capital paulista e veio à cidade para acompanhar de perto o socorro às vítimas. Luciano, sempre de muita personalidade, e por não concordar com as ideias de Adhemar, negou-se a recebê-lo.

Luciano conheceu Amélia Bovi, sua esposa, na cidade de Rio Claro. Casaram-se, tiveram três filhos, e permaneceram juntos por 40 anos, até a morte do comendador em julho de 68.

Morte

Por volta do meio-dia de 07 de julho de 1968, o comendador Luciano Guidotti almoçou no lar dos Velhinhos, na companhia de Dom Ernesto de Paula, então Bispo Diocesano de Piracicaba. Em seguida, retornou à sua casa (na esquina da Avenida Independência com a Saldanha Marinho) para dormir um pouco.

E foi em sua casa, por volta das 14 horas, que Luciano começou a se sentir mal. O doutor José Eduardo de Mello Ayres, seu médico, foi chamado à residência para prestar socorro ao prefeito, porém todos os esforços foram em vão.

Às 16 horas do mesmo dia, Piracicaba recebeu a notícia da morte de Luciano.

A cidade parou. Todos enlutaram-se e compareceram às ruas para acompanhar as notícias da morte do prefeito. O comendador, título que o acompanhou por quase toda a vida, morreu ainda durante o mandato. Foi vítima de um infarto do miocárdio, aos 64 anos de idade.

O vice-prefeito de Piracicaba, Nélio Ferraz de Arruda, decretou luto oficial de três dias e ponto facultativo em todos os órgãos municipais.

Às 05h10 do dia 08 de julho, a missa de Luciano Guidotti foi rezada por Dom Aniger Francisco Melillo na Catedral da praça José Bonifácio. A família de Guidotti, formada pela agora viúva Amélia Bovi, pelos filhos Vila, Wilson e Lúcia Cristina, e pelos irmãos João e Miguel, compareceu à missa. Aliás, aproximadamente dois mil piracicabanos ensandecidos compareceram à missa.

“Luciano, adeus!”, comentou o então empossado prefeito Nélio Ferraz de Arruda, pouco antes do enterro.

O sepultamento ocorreu às 18 horas, na quadra número 1 do Cemitério da Saudade, no bairro Alto. Nas palavras de “Tum”, lendário coveiro do cemitério da cidade, “o dia estava bom, porém corrido, já que, naquele mesmo dia, onze enterros foram feitos no Cemitério da Saudade”. E tudo foi triste. O número de pessoas acompanhando o enterro de Luciano foi tão grande que muitos não conseguiam nem mesmo entrar no cemitério.

Velório de Luciano Guidotti

Foto: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP).
Foto: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP).

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