Após deixá-lo de lado, Casa Civil diz que Mandetta entra no grupo sobre economia no pós-coronavírus

RICARDO DELLA CLETTA
BRASÍLIA, DF

Depois de criar, sem a participação do ministério da Saúde, um grupo de trabalho para discutir diretrizes para a retomada das atividades afetadas pelo novo coronavírus, o governo informou que a pasta será incluída no colegiado.

Casa Civil diz que Mandetta entra no grupo sobre economia no pós-coronavírus
Foto: Adriano Machado/Reuters/07-04-2020

“O ministério da Saúde e outros órgãos que o comitê [de crise que monitora o combate à doença no Brasil] julgar pertinente serão incluídos”, disse a assessoria da Casa Civil, que coordena o grupo.

O grupo foi instituído por resolução publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira (14).

A publicação no Diário Oficial não trouxe vaga para o Ministério da Saúde, comandado por Luiz Henrique Mandetta. A assessoria da Casa Civil não informou quando a inclusão da Saúde será formalizada.

Farão parte do colegiado, coordenado pela Casa Civil, os ministérios de Relações Exteriores, Defesa, Economia, Infraestrutura, Agricultura, Minas e Energia, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente, Turismo, Desenvolvimento Regional, Controladoria Geral da União, Secretaria Geral, Secretaria de Governo, Segurança Institucional e Advocacia-Geral da União.

Entre as atribuições listadas pelo grupo de trabalho, está a proposição de “ações estruturantes, atos normativos e medidas legislativas para a retomada das atividades afetadas pela Covid-19 em âmbito nacional”; a articulação com estados, municípios e empresas para a elaboração de propostas com o mesma finalidade; e a discussão de medidas da infraestrutura com foco em obras públicas e parcerias com o setor privado.

Também constam na lista de atribuições a elaboração de políticas para a redução de disparidades regionais causadas pelo novo coronavírus, para a destinação de emendas parlamentares e para garantir a cadeia de suprimentos e do setor energético.

Por último, o grupo deve também propor ações de desburocratização de procedimentos administrativos, entre eles a simplificação de procedimentos relativos à criação e extinção de empresas.

Segundo a assessoria da Casa Civil, o grupo de trabalho será constituído no âmbito do comitê de crise que monitora o combate à doença no Brasil. O comitê é coordenado pelo ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto -a pasta da Saúde faz parte dessa estrutura.

bolsonaro e henrique mandetta ministro da saúde
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

“O grupo de trabalho de vários ministérios vai consultar órgãos ad hoc e coordenar as ações estruturantes e estratégicas para a recuperação e retomada do crescimento econômico do país e do bem-estar da sociedade brasileira”, disse a pasta.

Interlocutores ouvidos pela reportagem argumentam que “não faria sentido” retirar pessoas da Saúde no momento para compor o comitê, uma vez que o objetivo, dizem, é discutir medidas de longo e médio prazo para a retomada da economia.

Principal rosto da reação ao Covid-19 no Brasil, Mandetta entrou em linha de choque com o presidente Jair Bolsonaro, que pressiona para que ele peça demissão do cargo.

O desconforto do presidente com seu auxiliar aumentou no domingo (12), com a entrevista concedida pelo titular da Saúde à rede Globo. Na ocasião, Mandetta disse que os brasileiros não sabem se devem seguir as orientações do ministério (favorável ao isolamento social) ou de Bolsonaro (que e crítico de medidas como o fechamento de comércios).

A entrevista afetou inclusive o apoio que Mandetta detinha junto à cúpula militar do Palácio do Planalto, que vinha atuando para evitar sua saída da Esplanada dos Ministérios.

Para a cúpula fardada, Mandetta fez um confronto público com seu superior, não obedecendo a hierarquia do cargo, e reacendeu um conflito que havia diminuído de temperatura.

Com o diagnóstico de que Mandetta perdeu um apoio de peso, o presidente avaliou, de acordo com deputados bolsonaristas, ter sido aberta uma nova brecha para intensificar a estratégia de pressioná-lo a pedir exoneração. Ao forçá-lo a se demitir, Bolsonaro quer evitar que Mandetta saia do governo com a imagem de mártir.

Segundo assessores presidenciais, a ideia é que a partir desta terça o ministro seja escanteado de reuniões, não participe de decisões do governo e que seja dado mais espaço a quem lhe faz um contraponto público.

Informar Erro
Leia também