Doutora Flávia, médica do SAMU: “Eu tenho muita vontade de ajudar o próximo”

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Flávia de Sá Molina nasceu no município de Ilhéus, na Bahia (BA), no dia 1 de março de 1979. Aos 23 anos, deixou para trás sua cidade e mudou-se a Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde cursou Medicina na Universidade Iguaçu. Veio em seguida para Piracicaba, já com o diploma em mãos e na companhia da família, onde sempre fez questão de exercer a profissão junto ao público. E foi em 2017 que conseguiu finalmente realizar seu antigo sonho de tornar-se Coordenadora Médica da Urgências e Emergências de Piracicaba.

Nesta entrevista concedida ao jornalista Rafael Fioravanti, do Jornal PIRANOT, Flávia fala um pouco sobre seu começo de carreira e de seu trabalho à frente do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT

O que a medicina significa para você?
Eu vim de uma família de médicos. Meu pai é médico, meu avô era médico na minha cidade (Ilhéus), então desde pequena eu sempre gostei de ajudar as pessoas e sempre falei que queria ser médica. Não tinha outra coisa na vida em que eu pensasse que me realizaria profissionalmente que não fosse a medicina. Gosto muito do que faço e amo muito o que faço. Eu falo para os meus filhos: “sair todo dia de casa para trabalhar é difícil, mas todos os dias eu saio somente com a vontade de fazer o bem.” Tenho muita vontade de ajudar o próximo.

Como sua carreira teve início?
Eu vim para Piracicaba, prestei concurso para o Pronto Socorro da Família (PSF), mas sempre gostei de emergência. Comecei minha carreira no PSF do Campestre/Costa Rica, onde trabalhei por mais ou menos um ano, e fazia horas extras também no Vila Cristina. Daí chegou um momento na carreira em que me dividi, porque gostava de trabalhar no Campestre, mas me sentia atraída pela urgência. Por isso decidi pedir exoneração e fazer concurso para ser médica plantonista da Urgência e Emergência.

Infelizmente, muitos telefonemas que o SAMU recebe não são relacionados a emergência ou urgência médica; muitas vezes, as pessoas querem apenas tirar informações ou sanar dúvidas. Eu gostaria que a senhora respondesse: quando as pessoas devem ligar para o SAMU e quando devem ligar para o telefone 156 da Prefeitura?
Ligar para pedir informação não tem problema, a gente orienta. O que a população não entende é que o deslocamento [ao hospital] não precisa ser necessariamente feito de SAMU. O SAMU é para casos de hipoglicemia, convulsão, trauma, acidentes, dores crônicas, coisas de urgência mesmo. São casos em que nós sabemos que o paciente está com dor e precisa ser atendido urgentemente. Agora, em outros casos, o transporte pode ser feito de carro. Por exemplo, quando uma criança fica com febre, eu consigo entender o desespero dos pais (até porque eu também sou mãe), mas as pessoas precisam entender que podem muito bem pegar um carro e se deslocar até o pronto-socorro por meios próprios, ao invés de ligar para o SAMU. Já aconteceu de cair cinco códigos vermelhos aqui (urgência), e eu ter que sair para dar suporte a uma ocorrência básica, quando alguém em uma situação pior precisava bem mais de mim. E a população não entende isso, ainda temos muitas solicitações para ocorrências que não necessitam especificamente de uma ambulância.

Há pessoas que acionam o SAMU para furar fila no hospital ou para não precisar esperar para ser atendido?
Sim, as pessoas analisam isso. “Ah, eu vou de SAMU, porque aí eu entro pela emergência e sou atendido mais rápido”. Lego engano. A ambulância vai até o local, pega o paciente, entra com ele pela emergência do hospital, mas aí o paciente passará por uma triagem. E é a própria equipe da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) que faz isso. Então, é engano achar que ir de ambulância é sinônimo de atendimento mais rápido. Isso é só um desperdício de recurso. Eu poderia estar socorrendo alguém com uma convulsão ou com um TCE (traumatismo cranioencefálico), mas socorro alguém com febre ou dor na perna.

Qual a maior demanda de atendimento do SAMU Piracicaba atualmente?
Está tudo bem puxado e a demanda depende muito de períodos. Há muitos acidentes (geralmente em horários de pico, como saída de trabalho, horário de almoço, etc), há alguns casos de hipoglicemia, e convulsão também costuma acontecer bastante. Às vezes, a pessoa passou mal o dia todo e daí, à noite, acaba ligando para ser atendido — trata-se de uma ocorrência não necessariamente aguda, mas que a gente sempre acaba mandando alguém. Caso o dia esteja muito corrido, a gente cancela casos mais simples e dá prioridade às emergências.

Trote infelizmente é uma coisa muito comum. Eu gostaria de saber o que o SAMU tem feito para coibir essa prática aqui no município?
Nós anotamos o número. Estamos estudando também a questão da multa; ainda não aplicamos em ninguém, mas estamos tentando levar esse projeto para frente, porque é um absurdo… recebemos muitos trotes. Um dia eu fui com viatura de emergência para Tupi e quando cheguei lá descobri que era um trote. Como a gente vai descobrir se é verdade ou mentira? Temos que ir! Às vezes, a gente até sente algo errado na ligação e detectamos; mas em outros casos, o pessoal liga e fala “a pessoa não está respirando, precisamos de urgência aqui!”, e a gente acaba indo. Nos deslocamos até o local, rodamos bastante e nada de ocorrência. Depois descobrimos que se tratava de um trote.

O Programa de Segurança Rural foi criado aqui no município em 2015 e ainda é muito eficaz. Gostaria que a senhora explicasse aos moradores da área rural a importância de ser cadastrar nesse sistema.
Como a gente fica no Centro, o apoio da rural visa agilizar o tratamento deles. O pessoal da rural atende muito bem, presta um atendimento perfeito e eu sempre falo que essa é a chance que o paciente tem de chegar o hospital. Quando você está na zona rural e se cadastra, auxilia muito também na questão da localização. Têm algumas chácaras que são super difíceis de encontrar e, quando você está cadastrado no sistema, tudo fica mais fácil.

Qual ocorrência mais te marcou nesses anos de serviço?
Todas marcam, mas tem algumas que estão eternizadas no meu coração. Geralmente quando eu atendo uma vítima na rua, ela está inconsciente e não sabe quem eu sou. Então, quando a vítima me procura depois, isso acaba me marca bastante. Tem um rapaz que é instrutor de moto na auto-escola e que já veio me procurar. Ele olhou para mim e falou: “Foi você?” Eu falei que sim, aí ele ficou super feliz e me abraçou, porque tinha sobrevivido. Recentemente, teve também o caso de um menino que acabou sobrevivendo. Hoje somos até amigos no Facebook, nós conversamos bastante pelo Messenger e eu sempre falo para ele que ele é um milagre de Deus, porque eu o socorri praticamente morto. Ele ficou um bom tempo na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), hoje ele está em reabilitação e está indo super bem.

Os integrantes da família SAMU recebem hoje algum tipo de acompanhamento psicológico?
Sim, nós temos. Estava vindo um coach semanalmente aqui, e agora a Prefeitura disponibilizou psicólogos. Às vezes, uma simples postagem no Facebook nos abala. Todo mundo que está aqui trabalhando no SAMU, sai de casa apenas para fazer o bem. Então quando a gente vê uma postagem no Facebook, onde a vítima coloca sobre nós a culpa de tudo o que aconteceu, o pessoal aqui do SAMU fica bem triste, fica bem abalado. Aí eu tento conversar com eles e falo: “não ligue, não é assim, eles vão sempre reclamar de alguém e vai ser sempre a gente. Saímos de casa para dar o nosso melhor e sabemos bem disso”. Esse tipo de coisa também me abala, tanto que quase não tenho entrado muito no Facebook. Ninguém aqui é vagabundo, ninguém aqui é um bando de funcionário público. A gente está aqui porque a gente gosta, a gente está aqui para ajudar as pessoas nas ocorrências. Ninguém vem trabalhar com a pior das intenções, isso não existe.

Para finalizar, qual sua mensagem a todos que lerão esta entrevista?
Eu quero dizer que o SAMU está aqui para ajudar todo mundo e que as pessoas precisam saber solicitar o serviço. Peço também que as pessoas tenham paciência com as perguntas, porque isso faz parte de um protocolo. Não fazemos perguntas porque somos chatos ou porque não queremos enviar ajuda, mas porque precisamos triar e saber qual o melhor recurso para enviar para determinada ocorrência. Às vezes, as pessoas passam informações tão simples por telefone, e quando chegamos no local, nos deparamos com uma ocorrência onde precisaríamos na verdade de uma UTI; e em outros casos, as pessoas passam informações com tanta gravidade, e no local, percebemos que trata-se de coisas simples e que poderíamos ter encaminhado a UTI para outra ocorrência. Se alguém precisar da família SAMU, estaremos sempre aqui para ajudar.

A doutora Flávia com sua equipe, o motorista Celso e a enfermeira Márcia. Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT
Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT
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