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O Brasil que vende suas joias: como Dicico, Mercado Livre e iFood e 99 foram comprados pela Argentina, Holanda, África e China

Júnior Cardoso by Júnior Cardoso
31 de outubro de 2025
in Negócios e Dinheiro
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mercado livre

Enquanto acompanhamos a fascinante guerra entre iFood, Uber, 99Food e Keeta, com seus investimentos bilionários e estratégias globais, uma questão fundamental permanece pairando como um fantasma: por que empresas nascidas no Brasil, com DNA brasileiro, terminam tendo sua riqueza e controle transferidos para o exterior?

O caso é emblemático: a 99, fundada por Paulo Veras em 2012, foi vendida à chinesa Didi por US$ 1 bilhão em 2018. O iFood, criado por Patrick Sigrist e outros três brasileiros em 2011, é hoje 100% controlado pela holandesa Prosus (que por sua vez é subsidiária da sul-africana Naspers). O Mercado Livre, fundado pelo argentino Marcos Galperin, mas que construiu seu principal mercado no Brasil, hoje responde a acionistas internacionais. Por último, a DICICO, que foi comprada pela argentina Sodimac, e fechou quase todas as lojas, nos últimos anos, até por conta da grave crise que o país da empresa compradora passa há anos.

Os números que doem

O iFood movimenta R$ 100 bilhões por ano em transações apenas no Brasil. A empresa fatura cerca de R$ 15 bilhões anualmente. A Prosus, sua controladora, vale aproximadamente US$ 80 bilhões na bolsa de Amsterdam – valor que em grande parte vem do desempenho brasileiro.

A 99, antes da venda, valia US$ 1 bilhão – um dos maiores exitos do ecossistema brasileiro de startups. Hoje, faz parte de um império chinês avaliado em US$ 30 bilhões.

O que se perde quando a joia vai embora?

  1. O comando das decisões estratégicas: Quando a Keeta chegou ao Brasil desencadeando toda uma reação em cadeia, as decisões do iFood foram tomadas na Holanda. Os rumos da 99 são traçados em Xangai. O Brasil vira mero executOR de estratégias concebidas no exterior.

  2. Os lucros que evaporam: Os dividendos bilionários, os ganhos com valorização das ações – tudo isso segue para fundos de investimento estrangeiros. É como ter uma mina de ouro no quintal, mas alugá-la para outros explorarem.

  3. A soberania tecnológica: Perdemos o controle sobre infraestruturas críticas. Os dados de milhões de brasileiros, os algoritmos que orientam nosso consumo, a logística que move nossas cidades – tudo está cada vez mais sob controle de conglomerados globais.

  4. O efeito cascata no ecossistema: As melhores mentes brasileiras terminam trabalhando para desenvolver tecnologia que beneficiará principalmente acionistas estrangeiros. Os fundos de venture capital locais perdem oportunidades de investir em empresas de alto crescimento.

O paradoxo brasileiro

Somos um país com:

  • 220 milhões de consumidores

  • Um dos maiores mercados de internet do mundo

  • Talentos técnicos reconhecidos globalmente

  • Um ecossistema empreendedor vibrante

Mas não conseguimos reter a propriedade das empresas que aqui nascem e crescem. O problema não é a venda em si – todo empreendedor tem direito ao exit – mas a falta de condições para que essas empresas permaneçam com controle nacional.

O que nos falta?

  • Capital paciente: Fundos brasileiros ainda são muito conservadores para apostar em startups em fase de crescimento

  • Visão de longo prazo: Enquanto fundos chineses e europeis pensam em décadas, nossos investidores ainda pensam em trimestres

  • Apoio estatal inteligente: Políticas públicas que incentivem a retenção de controle, não apenas a atração de capital estrangeiro

O caminho à frente

A guerra do delivery nos ensina uma lição valiosa: ou criamos nossos próprios campeões nacionais, ou seremos eternamente campo de batalha de gigantes estrangeiros. Precisamos de:

  1. Fundos soberanos focados em manter o controle de empresas estratégicas

  2. Regulação inteligente que proteja nossos interesses sem fechar o mercado

  3. Educação financeira para empreendedores sobre a importância de manter o controle

  4. Orgulho nacional em construir e manter empresas brasileiras

Enquanto isso, seguiremos assistindo à guerra dos apps como espectadores – torcendo, usando, pagando – mas sem jamais participar dos verdadeiros prêmios. O delivery chega rápido à nossa porta, mas a riqueza que ele gera segue rapidamente para muito longe.

O Brasil precisa decidir: queremos ser apenas o campo de jogo, ou também queremos ser os donos do estádio?

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