Vacina russa produz imunidade contra novo coronavírus, mostram primeiros dados publicados

Vacina russa produz imunidade contra novo coronavírus, mostram primeiros dados publicados

Ao todo, mais de 170 vacinas estão em desenvolvimento em diversos países, de acordo com a OMS

 A vacina russa Sputnik V é capaz de produzir imunidade contra o novo coronavírus sem desencadear reações adversas graves, segundo um artigo publicado nesta sexta-feira (04) na revista científica The Lancet.

Uma foto da vacina contra Covid-19
Foto: Arquivo/ND

Esta é a primeira vez que os dados sobre os testes com a imunização ficam disponíveis publicamente para cientistas e população. Até então, a falta de transparência sobre o desenvolvimento e os primeiros testes com a vacina gerava desconfiança sobre sua eficácia.

Os resultados publicados são de dois testes clínicos de fase 1 e 2 feitos com 38 voluntários cada -76 no total. Os participantes eram pessoas saudáveis com idades entre 18 e 60 anos. Foram testadas duas formulações da Sputnik V: rAd26-S e rAd5-S.

Na primeira fase de testes clínicos de vacinas, os cientistas avaliam se é seguro usar a imunização. Na fase 2, os pesquisadores procuram pela dose necessária para gerar uma resposta imunológica. Como o teste russo, geralmente são feitos sem necessidade de randomização (escolha aleatória dos participantes) e grupo de controle, que recebe um placebo para comparação de resultados.

De acordo com os resultados, a vacina produziu anticorpos em todos os participantes em cerca de 21 dias após a primeira aplicação. Depois de 28 dias, os pesquisadores também detectaram a produção de células T, outro produto do sistema imunológico que tem um papel importante no combate à doença.

No texto, os autores afirmam que os participantes não experimentaram reações adversas mais sérias. Segundo os dados, as manifestações mais comuns foram dor no local onde a vacina foi aplicada, hipertermia e dor de cabeça, a maior parte de intensidade moderada.

Para a imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e pesquisadora-associada da Universidade da Califórnia em San Diego, os resultados da vacina russa são semelhantes aos de outras vacinas em desenvolvimento. A novidade é a publicação dos dados, que faz melhorar a percepção que os especialistas têm sobre a vacina.

“À medida que mais dados são divulgados, outros cientistas podem verificar ou reproduzir os resultados. A ciência precisa ser transparente”, afirma Bonorino.

Na avaliação da cientista, os pesquisadores russos ainda devem para a comunidade científica a publicação das fases de desenvolvimento da substância e dos testes pré-clínicos, feitos em culturas de células e animais.

A Sputnik V foi a primeira vacina contra o Sars-CoV-2 a receber uma aprovação regulatória no mundo, ainda no início de agosto. O governo russo planeja testes da imunização com 40 mil participantes e o início da produção industrial para os próximos meses.

O estado do Paraná tem um acordo para a produção da vacina, que inclui transferência de tecnologia para a fabricação da substância no Brasil e possibilidade de importação e distribuição para a América Latina.

Apesar dos resultados positivos, ainda não é possível saber por quanto tempo a imunidade contra o Sars-CoV-2 pode durar. Até a quinta-feira (3), mais de 30 possíveis vacinas contra o Sars-CoV-2 estavam na fase de testes clínicos (em humanos), segundo informações da OMS (Organização Mundial da Saúde) -oito delas na fase 3, a mais avançada.

Ao todo, mais de 170 vacinas estão em desenvolvimento em diversos países, de acordo com a OMS.

No artigo, os pesquisadores russos lembram que os resultados publicados não permitem uma conclusão definitiva sobre a eficácia da Sputnik V e afirmam que serão necessárias novas pesquisas para avaliar o remédio.

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