Ficção científica de Ray Bradbury buscava no passado a distopia do futuro

Ficção científica de Ray Bradbury buscava no passado a distopia do futuro

Autor do clássico “Fahrenheit 451”, Ray Bradbury tratava em seus livros a ciência como um detalhe e a tecnologia até com certo desprezo

O primeiro marciano a cair na Terra completaria cem anos neste sábado (22). Autor dos clássicos “Fahrenheit 451” e “Crônicas Marcianas”, Ray Bradbury tratava em sua literatura de ficção a ciência como um detalhe e a tecnologia até com certo desprezo. “Por que clonar uma pessoa, quando você pode simplesmente transar e fazer um bebê?”, ele se perguntava. O autor também não dirigia automóvel e tinha medo de avião.

Uma foto do escritor Ray Bradbury, em 2009, no seu escritório
Foto: Ethan Pines / The New York Times

“O que é a ficção científica? É a literatura que prevê o futuro? Não. É a literatura que olha o presente, vê o presente em movimento, vê o presente como uma forma que se avoluma, cresce, toma conta do mundo”, argumenta o escritor e crítico Bráulio Tavares ao comentar a obra do autor.

Em Bradbury, não há monstros alienígenas. Tampouco descobertas científicas extraordinárias e complicadas de o leitor entender. Até os aparatos tecnológicos e o ambiente de lugares a anos-luz de distância assumem um tom poético.

Em Tyrr, nome pelo qual os marcianos chamam o planeta vermelho, se vive num eterno outubro, as mulheres têm olhos amarelos, se assam pães de cristal, se bebe fogo elétrico, a comida é entregue por icebergs voadores.

A recente notícia de que a Nasa prepara mais uma missão a Marte -o jipe Perseverance deverá pousar no planeta em fevereiro do ano que vem para estudar as possibilidades de atividade biológica e pavimentar um caminho para o futuro da vida por lá– soa como uma homenagem às avessas ao centenário do escritor.

Publicado em 1950, “Crônicas Marcianas” trata de um lugar invadido e destruído por um povo estranho -os terráqueos- e da tensa relação entre conquistado e conquistador, com toques de sarcasmo, melancolia e lirismo.

Embora a ação do livro se desenrole entre 1999 e 2026, a ficção científica de Bradbury não mirava o futuro, e sim o passado -o genocídio nas guerras de colonização-, para entender como a humanidade chegara àquele terrível “presente em movimento” da Guerra Fria e da ameaça nuclear.

O próprio escritor desenhou sua árvore genealógica num depoimento -filho de Júlio Verne, sobrinho de H. G. Wells, primo de Edgar Allan Poe. Um meio de campo criativo que reúne não só a fantasia como também o terror. E, sobretudo, o compromisso com o prazer da leitura e o entretenimento.

Seria possível acrescentar à lista as assinaturas de contemporâneos de Bradbury -J. G. Ballard e Philip K. Dick, para os quais a ciência também era um acidente incômodo no mundo distópico.

Ao escrever o prólogo da saga de Marte, Jorge Luis Borges mencionou “seu caráter de antecipação de um futuro possível ou provável”.

O comentário é ainda mais apropriado se pensarmos no romance melhor realizado do escritor. “Fahrenheit 451”, lançado em 1953, retrata uma sociedade sombria, sob censura, dominada ideologicamente, em que os bombeiros a serviço do Estado totalitário não combatem o fogo, mas o ateiam aos livros, para destruir os volumes, apagando o conhecimento, a memória e as artes.

A motivação imediata da obra eram os anos de macarthismo e perseguição política nos Estados Unidos, mas sua antevisão se mostra de um alcance ainda maior e atualíssimo, quando se pensa em governantes que consideram a leitura como “coisa de rico”.

Escritor profissional e contador de histórias, como se definia, Bradbury impôs a si mesmo uma rotina obsessiva. Durante mais de 60 anos escreveu ao menos um conto por semana, que podia ou não ser aproveitado. Neles, desenvolveu um estilo rebuscado, cheio de símiles e metáforas, de vocabulário rico, prosa que causava estranheza e fascínio nos leitores das revistas pulp nas quais costumava publicar.

Dezesseis desses contos estão na coletânea “Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451”, que o selo Biblioteca Azul mandou para as livrarias em homenagem à data redonda de nascimento. De “O Bombeiro” nasceu o romance famoso e, em “A Biblioteca”, um personagem lamenta “rasguem meus livros, queimem meus livros, erradiquem, rasguem, limpem, matem-nos, ah, matem-nos”.

O melhor relato se inspirou numa abordagem sofrida pelo escritor. Em “O Pedestre”, alguém sai de casa à noite. Estamos em 2053, as ruas desertas, todos em casa diante das TVs. Chega o carro de polícia e leva o homem -que tem como único comportamento estranho o hábito de caminhar– para o Centro Psiquiátrico de Pesquisa de Tendências Regressivas.

Morto em 2012, aos 91 anos, o que Ray Bradbury escreveria sobre um tempo -o nosso- em que uma médica, que tem entre seus seguidores o presidente Trump e a cantora Madonna, afirma que relações sexuais com demônios são a origem das doenças, o DNA de aliens é usado como tratamento delas e que cientistas estão desenvolvendo uma vacina para acabar com as religiões?

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