Rosangela Camolese: “eu gosto de trabalhar com o povo”

Rosangela Camolese nasceu no dia 12 de julho de 1961 e é a atual responsável pela Secretaria Municipal da Ação Cultural e Turismo (SemacTur) da cidade de Piracicaba, pasta encarregada de cuidar de todas as ações culturais do município. Nesta entrevista concedida ao jornalista Rafael Fioravanti, do Jornal PIRANOT, Rosangela Camolese contou um pouco de sua trajetória, falou de suas ações culturais, e teceu, principalmente, suas considerações sobre o atual cenário político do município. Confira a entrevista abaixo.

Rosângela Camolese
Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT

Gostaria, primeiramente, que a senhora fizesse uma breve retrospectiva de sua trajetória na política.
Sou filiada ao PSDB desde 1992. Fui levada ao PSDB pelo meu pai e ex-prefeito Mendes Thame. Em 1993, quando Thame foi eleito prefeito, meu marido acabou logo em seguida sendo convidado para presidir o Semae (Serviço Municipal de Água e Esgoto). Lá ele permaneceu por sete anos, até o ano de 2000. E eu sempre estive nos bastidores como esposa do presidente e também correligionária do PSDB. Me filiei ao PSDB porque gosto da filosofia do partido. É um partido social-democrata, e eu sou uma social democrata. Sempre gostei de envolvimento político. Em 2001, meu marido saiu do Semae e comecei aí a trabalhar em movimentos suprapartidários — um deles em São Paulo, onde fiz parte do PSDB Mulher. Na sequência, vários convites de trabalho foram acontecendo. Em 2004, período em que fui coordenadora de Educação e Cidadania, o Barjas saiu candidato a prefeito e acabou convidando algumas mulheres para saírem candidatas a vereadoras, uma delas eu. Na época, até fiquei assustada, pensei: “logo eu?” Mas ele achava que eu seria um bom nome, porque eu tinha um colégio, era educadora e engenheira civil. Ele achava que eu tinha um currículo para mostrar e dar início na vida pública. E acabei gostando. O Barjas é uma pessoa que eu admiro muito. Muito do que sou hoje, devo a ele. Se ele não tivesse confiado em mim um cargo de vereadora, e, posteriormente, um cargo na Secretaria da Cultura, eu não teria a oportunidade de colocar em prática tudo que sei de políticas-públicas, algo que muito me encanta.

E como foi o processo de vereadora?
Quando saí candidata a vereadora pela primeira vez, fiz 948 votos. Foi uma surpresa tanto para mim quanto para o pessoal. Fazer 1000 votos é uma tarefa muito difícil, até porque pulveriza muito. Faz-se necessário uma frente de trabalho forte. Aí logo em seguida, o Barjas já me convidou para ser secretária de cultura. E eu gostei do convite, até porque sempre fui envolvida com cultura — estudei piano na Áustria, fui presidente da Orquestra Sinfônica de Piracicaba, fiz ballet na minha vida, estudei artes, fui professora de Educação Artística, e sou musicista formada em 1979 no já extinto Conservatório Dramático Musical de Piracicaba, que pertencia às irmãs do Instituto Baronesa de Rezende. Eu já tinha uma vivência que me permitia buscar novos horizontes dentro da Secretaria de Cultura. Em 2008, o Barjas me pediu para que eu novamente fosse enfrentar o pleito e aí acabei ganhando: fiz 2853 votos. Aumentou bastante e era um sinal que meu trabalho estava sendo reconhecido. Até então eu achei que fosse ficar na Câmara de Vereadores, mas acabei ficando apenas um dia, pois o prefeito pediu para que eu voltasse à secretaria. Ele tinha alguns empreendimentos para fazer em sua então segunda gestão (2008 – 2012) e grande parte das ações culturais que ele tinha em mente, eu seria capaz de fazer com bastante facilidade. Na época, fiquei em dúvida se eu devia voltar ou não para a secretaria, até porque eu tinha os meus eleitores. No fim, eu senti que era importante ter voltado. Sabe o por quê? Te explico: na época, existia duas grandes empreitadas que eu já estava no meio do caminho como secretária. A primeira era a compra do Engenho Central (que se deu em 2012, durante minha gestão, onde a partir de então Engenho tornou-se propriedade de Piracicaba). E o segundo era a construção do Teatro, que ocorreu nessa época. Eram dois grandes desafios dentro da cultura que me fizeram deixar o cargo de vereadora e voltar como secretária.

O que a senhora define como cultura?
Cultura não são apenas as manifestações artísticas. Cultura é tudo que uma sociedade absorve como sua e que faz bem à sociedade.

Qual requisito a senhora julga essencial para um bom desempenho no cargo de Secretária da Cultura?
O primeiro requisito é entender bem as leis de incentivo à cultura, pois o cobertor é curto. Só o dinheiro do tesouro não dá, precisamos sempre estar buscando parcerias. Outro requisito importante é que a pessoa seja ativa. Eu, por exemplo, sou ligada no 220. Sabe por quê? Começamos com quatro casas para cuidar, e, atualmente, estamos com 30. Foi mesclado, em 2017, a pasta de Turismo com a de Cultura e totalizamos 30 casas. E precisamos de pessoas de altíssima confiança em todas essas casas. E precisamos também dar autonomia a elas para que possam trabalhar, mas sempre cobrando que tudo seja reportado ao secretário. E são diversos os problemas que enfrentamos. Cultura não é apenas diversão. Enquanto o evento está lá ocorrendo, todo mundo gosta; porém, nos bastidores trabalhamos muito incansavelmente. Outro requisito é que a pessoa tenha desprendimento. Os familiares precisam entender que é necessário que trabalhemos muito aos finais de semana, aos feriados e à noite.

Quando a senhora entrou, em 2005, qual era o cenário cultural aqui em Piracicaba?
Piracicaba estava muito desacreditada quando entrei, no que concerne aos produtores culturais de fora. Talvez porque não tínhamos uma relação de público-plateia a contento. Hoje, por coincidência, conversei com uma das produtoras responsáveis por trazer grandes eventos aqui para Piracicaba — inclusive ela trouxe recentemente o ator Miguel Falabella. E ela me agradeceu muito. Agradeceu a cidade, agradeceu ao Teatro e toda direção. Ela disse que o Falabella ficou encantado de ver o Teatro do jeito que está. Essa produtora inclusive me perguntou: “secretária, como a senhora faz para ter dois teatros aqui em Piracicaba fervilhando de coisas? Qual o segredo?” E eu respondi a ela: “O segredo é trabalho, trabalho, trabalho.” Temos uma equipe coesa e uma turma envolvida e desprendida.

Qual o segredo para atrair a atenção da comunidade piracicabana para as atrações culturais que existem na cidade?
O que fizemos lá atrás está dando resultado hoje. Fizemos um trabalho missionário de levar o nome de Piracicaba a outras regiões, às empresas, visitamos instituições, etc. Em 2004 e 2005, visitei vários lugares e isso está repercutindo agora. As empresas estão vindo junto conosco. Essas parcerias são importantes. Por exemplo: todo ano, a ArcellorMittal banca um valor significativo contratando produções, e toda essa produção infanto-juvenil vem ao teatro todo domingo, de março a dezembro. As famílias vêm prestigiar, e é interessante notar que as crianças que começaram a frequentar o teatro há dez anos, são hoje o público das peças adultas. São ações que fizemos ao longo do tempo.

Em junho, eu conversei com o prefeito Barjas Negri e ele me disse que, nesta gestão, pela falta de recursos, se faz necessário o uso maior da experiência. Quais dificuldades a senhora sente atualmente à frente da Cultura?
Está difícil trabalhar. Muitas Prefeituras estão quebradas por aí, e graças a Deus Piracicaba não é uma delas. Temos uma boa gestão do nosso prefeito, principalmente nos últimos dois anos — temos pessoas perdendo emprego, temos firmas com dificuldades, há pouco pagamento de impostos, a renda do município cai, enfim, é uma bola de neve. O prefeito tem que sambar, e logicamente dificulta para Cultura, dificulta para Esporte, dificulta para o Turismo e para todo mundo. Por isso que o gestor da Cultura tem que ter muita criatividade. Tem que sair do gabinete criativo e buscar sempre parcerias. Eu estou sempre visitando empresas, às vezes seis ou sete por semana. Preciso me virar nos 30 como secretária. O pessoal anda falando de contingenciamento, mas isso nós já trabalhamos por aqui desde o primeiro dia. Isso é uma característica do Barjas Negri. Ele é economista. Todos nós que estamos junto dele já sabíamos o que era contingenciamento. O que tenho feito nesses tempos de crise é usar a criatividade.

Como funciona esse processo de buscar parcerias e captar recursos para o financiamento de projetos culturais aqui na cidade?
Visitando as empresas. Temos que descobrir quais empresas têm ICMS a pagar e que poderá ser aportado nos projetos das pessoas que nos procuram. Por meio da Lei Rouanet, descobrir quem pode ser um possível patrocinador. Ou simplesmente ir atrás daquelas empresas que têm um aporte simples e que podem nos ajudar. Não estamos sempre necessariamente atrás de recurso em dinheiro. Às vezes, uma pizzaria pode, por exemplo, nos ajudar com a pizza nos bastidores, no camarim. Nesses anos todos, temos trabalhado com algumas empresas e pela seriedade dos nossos trabalhos já adquirimos uma credibilidade perante elas. No momento de crise, damos as mãos e ajudamos uns aos outros.

Se a senhora tivesse que fazer uma auto-crítica, o que ainda deve ser melhorado em sua secretaria?
Eu acho que precisamos de maior participação dos nossos artistas. Eles reclamam, reclamam, reclamam, mas na hora de ir lá dar sua contribuição, não vão. Essa é uma crítica que eu faço. Não podemos reclamar da mídia de Piracicaba — seja rádio, jornal e mídias sociais –, pois há disseminação de cultura. A questão é que há vertentes que buscam mais por informação, da mesma forma que há vertentes que buscam menos por informação. Esses que não buscam deveriam reclamar menos e se inteirar mais. Essa é minha crítica. Agora, minha auto-crítica seria a seguinte: como os desafios são diários, diria que muitas vezes nos esquecemos de ter um maior diálogo com algumas vertentes da cultura. Mas isso não acontece porque eu quero que aconteça, pelo contrário, é porque muitas vezes não dá, não tenho tempo. Não dá tempo de atender todo mundo como eu gostaria. E como aumentou o número de casas e o número de desafios (pela junção do Turismo com a Cultura), estamos trabalhando mais. Logo já acho que teremos que ter secretários adjuntos.

Essa junção do Turismo com a Cultura também já enfrentou muita resistência na época, não é mesmo?
Houve resistência, mas agora acalmou bastante. O que precisa é, com o passar do tempo e com o melhorar da economia, melhorar também o percentual da Cultura, já tivemos um percentual melhor. Mas isso é algo do momento. A resistência é normal, encaramos isso com naturalidade. Toda mudança tem resistência. As críticas eu encaro numa boa, desde que construtivas.

Eu gostaria de saber se, ao término do seu mandato, a senhora pretende trilhar outros caminhos dentro da política?
Sim, eu gosto de tudo na política, gosto de trabalhar com o povo. Gosto muito do Executivo (como secretária, estou nele) e gosto muito do Legislativo (como vereador). Seja no Executivo, seja como deputada Estadual ou Federal, eu acho que me daria bem.

Como a senhora avalia o governo do atual prefeito Barjas Negri?
Um governo de muito trabalho. Um governo em que os secretários sempre estão muito unidos, buscando alternativas cada vez mais fortes para que construamos uma sociedade mais justa, humana e fraterna, com políticas públicas cada vez mais voltadas à população. Um governo que tem seus defeitos, como qualquer outro, mas que sabe o valor da sociedade como um todo, sem perder o valor da história, da memória e da cultura desse povo. Um governo que busca uma cidade cada vez mais progressiva e que contribua para que Piracicaba continue sendo uma cidade linda, majestosa e acolhedora. Sou fã do prefeito Barjas Negri, tenho orgulho de fazer parte da equipe dele e o tenho como meu candidato no próximo governo, gostaria muito que ele continuasse. Ele ainda tem muito a contribuir. Ele é um excelente gestor e nós aprendemos muito trabalhando na gestão. Costumo dizer que cada ano que passamos aqui é uma faculdade que fazemos com ele. Aprendi muito com ele o que é ser um gestor público. Avalio o governo dele como positivíssimo. Sei dos enfrentamentos do governo dele, principalmente nesses dois últimos anos, onde ele pouco pôde investir, mas, ainda assim, continua investindo, por conta dos recursos que agora andam mais escassos se comparados às gestões anteriores. Estamos juntos com ele.

Para finalizar esta entrevista, abro espaço para suas considerações finais.
Gostaria de agradecer todos vocês, da mídia como um todo. Se não fosse vocês para nos ajudar a disseminar a cultura, não estaríamos chegando também nesse patamar em que estamos. Agradecemos todos aqueles que direta ou indiretamente tem contribuído para que chegássemos até aqui. Quero dizer também que estamos firmes e fortes para que possamos contribuir ainda mais para que Piracicaba continue sendo essa cidade maravilhosa. Vamos enfrentar os desafios econômicos, sociais, políticos e até culturais, para que tenhamos uma cidade, como disse, mais justa, humana e fraterna. E um agradecimento especial a todos os piracicabanos que têm colaborado para que chegássemos até aqui.

Rosângela Camolese
Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT
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