Comandante Lucineide: "mulher não é subordinada, tampouco propriedade do companheiro"

Comandante Lucineide: “mulher não é subordinada, tampouco propriedade do companheiro”

Lucineide Aparecida Maciel Corrêa entrou na Guarda Civil Municipal de Piracicaba (GCM) no ano de 1992. De lá para cá, procurou se especializar, crescer e, a convite do então prefeito Gabriel Ferrato, assumiu o comando da GCM, em cumprimento à Lei Federal 13.022/2014. Trata-se, aliás, da primeira mulher no comando da instituição em todos os seus 115 anos de existência.

Nesta entrevista concedida ao jornalista Rafael Fioravanti, do PIRANOT, Lucineide fala de seu começo na GCM, da questão da segurança no município, tece elogios à atuação da Patrulha Maria da Penha, e chama as mulheres para uma participação ainda mais consistente dentro da sociedade.

Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT

Gostaria que a senhora falasse um pouco sobre o seu começo na Guarda Civil Municipal (GCM).
Comecei em 1992 na primeira turma de mulheres da Guarda Civil Municipal. Deu certo, pois eu queria uma oportunidade de trabalho e ainda estava com 21 anos. Achei bem interessante, até porque queria conhecer o funcionamento da Guarda e também encarar aquele desafio de fazer parte da primeira turma de mulheres. Em 1992, tive meu início na Guarda, prestei concurso público e daí em diante fui crescendo dentro da carreira, aprendendo cada vez mais o que era realmente a função de um guarda, o que era realmente proteger a população. Aí resolvi crescer cada vez mais dentro da instituição. Em 1996, prestei concurso interno e passei para Classe Distinta. Em 1998, prestei novamente concurso interno, desta vez como sub-inspetora, e também fui aprovada. Foi nessa época que comecei a assumir novos setores, como os grupamentos, o pelotão ambiental, etc. Em 2012, também através de concurso interno, passei para inspetora. A essa altura eu já tinha uma responsabilidade ainda maior, como Oficial de Dia, chegando até a cuidar de uma equipe de aproximadamente 200 guardas. Só em 2016 fui convidada pelo então prefeito, Gabriel Ferrato, a assumir como comandante. O capitão Silas saiu e eu acabei assumindo. Posteriormente, o prefeito Barjas me reconduziu novamente ao posto e eu aceitei dar continuidade a esse desafio, onde estou até hoje.

Trata-se da primeira vez que uma mulher assume o comando da Guarda em 115 anos. Para a senhora como tem sido isso?
Isso foi decorrência do próprio serviço. Eu fui me aperfeiçoando, fazendo faculdade de Direito pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), fiz também especialização pela Unisul (Policiamento Comunitário), então tudo isso serviu para me preparar ainda mais para o trabalho. Não me preparei apenas com o intuito de um dia ser comandante, mas com a finalidade de estar preparada para a minha função de guarda. Como comandante, sendo a primeira mulher a liderar a Guarda Civil nesses 115 anos, eu posso dizer que já vim construindo uma história desde 1992, quando ingressei. Nesses 26 anos de trabalho, a presença da mulher na GCM foi cada vez mais gradativo. Aos poucos as equipes foram se renovando, novos guardas foram entrando, e eles já foram se acostumando com mulheres na liderança de algumas equipes. Meu papel como comandante na Guarda hoje é muito tranquilo. Todos hoje já assimilaram isso muito bem por conta do meu trabalho como profissional, e não por gênero.

Em sua opinião, como os piracicabanos enxergam a GCM atualmente?
Por ser centenária, a Guarda Civil já faz parte da história de Piracicaba. A população já se acostumou a ver a GC nas ruas, então ela sabe que pode sempre contar com a Guarda. Quando eu entrei como comandante, fui muito bem recebida por todas as instituições. As mulheres se sentem representadas por onde eu vou, então a visão da Guarda, para a população, é bastante positiva. Somos vistos como uma Guarda próxima e acolhedora. Como nós somos do município, e mais de 90% dos guardas residem aqui, já conhecemos os problemas locais e temos proximidade com todos. Nossos próprios vizinhos também apontam problemas para nós, então tudo funciona muito na base da cumplicidade. A relação da Guarda Civil com a sociedade piracicabana é muito próxima.

Qual a maior dificuldade que o comando da Guarda Civil enfrenta atualmente no município?
Na segurança como um todo, a questão das drogas é muito presente na sociedade. A gente tenta buscar algum meio de tirar os jovens desse caminho das drogas, inclusive por meio de programas nas escolas, que é feito pelo Pelotão Escolar. É muito triste ver que a juventude está seguindo cada vez mais esse caminho, não apenas na questão das drogas ilícitas, mas também por meio do simples consumo de bebidas alcoólicas. A juventude está se iniciando muito cedo nisso. Parece que, para se divertir, é necessário sempre alguma coisa a mais — seja uma droga ou uma bebida. Então o comando da GCM enxerga isso com muita preocupação, visto que são jovens cada vez mais precoces. É uma vida que compromete o futuro deles.

Num artigo publicado em 2016, a senhora disse que “por ser mulher, poderia exercer um comando mais conciliador na Guarda Civil.” Tem funcionado?
Sim! Quando o Capitão Silas saiu, uma coisa que a Guarda sempre almejou era um comando próprio. Não queríamos alguém de fora que viesse comandar a Guarda. Posteriormente, com a implantação da Lei Federal 13.022, isso se tornou possível. Então os guardas entenderam que há essa proximidade com o Comando para a resolução de assuntos, que, nós, como funcionários da Prefeitura, também entendemos e reconhecemos. Esse tom conciliador é justamente o que traz os guardas para perto, fornecendo tudo o que for necessário para que eles realizem um serviço ainda mais efetivo. Eles têm que se sentir motivados para poder prestar um bom serviço.

Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT

Nesses anos à frente da Guarda Civil, qual ocorrência mais chamou a sua atenção?
Realmente eu não teria como não dizer da ocorrência que envolveu nossos dois guardas civis, em 2017. Ocasião em que, naquele assalto que teve ao carro-forte, nossos dois guardas foram surpreendidos por um veículo e alvejados por disparos de fuzil na área central do município. Hoje eles felizmente estão bem, são competentes, se recuperaram e estão novamente em ação na GCM. Foi uma ocorrência muito marcante dentro da instituição, e também para mim como comandante.

Como a senhora enxerga a questão da segurança pública no município atualmente?
Na questão da segurança, verifico que Piracicaba está numa posição confortável. Em 2017, o Instituto Sou da Paz colocou Piracicaba entre os municípios menos violentos com mais de 200 mil habitantes. No período de 2017-2018, Piracicaba ainda teve índices de roubos e furtos reduzidos, então está tudo controlado. E eu entendo que isso não se deve apenas à Guarda Civil, trata-se de um trabalho conjunto que envolve Polícia Militar, Polícia Civil, sindicatos, organizações sociais, Bombeiros, Funseg (Fundo de Segurança de Piracicaba), uma união de várias instituições. Todos esses órgãos entrosam cada vez mais a segurança dentro do município. Por isso que se compararmos Piracicaba a outras cidades do mesmo nível, veremos que ela está bem controlada em níveis de segurança.

A Patrulha Maria da Penha exerce um trabalho fantástico em Piracicaba, por meio da Guarda Civil. Porém, eu ainda percebo que muitas pessoas não sabem como proceder em casos de denúncias. Gostaria que a senhora explicasse o procedimento.
A Patrulha Maria da Penha tem como objetivo fiscalizar as medidas protetivas que as mulheres recebiam depois de realizarem o Boletim de Ocorrência. Então, para fazer uma denúncia, as pessoas precisam ligar para o 153. O número funciona 24 horas. Às vezes, percebemos que a mulher não quer denunciar o agressor, por uma questão de medo, receio ou vergonha. É uma situação muito delicada, por isso dispomos de um grupo específico para cuidar desse assunto. O mal que a violência doméstica faz, não apenas à vítima, mas à sociedade como um todo, é muito grande.

Acompanhar esse tipo de situação diariamente é uma coisa que deve afetar bastante os guardas. Eles recebem algum auxílio?
Afeta. Nós temos aqui psicólogos que realizam um trabalho específico aos agentes que trabalham para a Patrulha Maria da Penha. Esse trabalho é necessário para que eles entendam o porquê daquela vítima nunca acabar denunciando, mesmo sendo alvo frequente desse tipo de situação. A psicóloga ajuda a fazê-los entender o porquê daquela vítima não largar o agressor ou o porquê da vítima não denunciá-lo. Há todo um trabalho junto do guarda para que ele entenda que a violência doméstica está além de muita coisa e que, muitas vezes, trata-se de um fator cultural. É algo que muda, mas que demanda tempo. A mulher não é subordinada, tampouco uma propriedade do companheiro. A mulher deve se fortalecer e entender que estamos apoiando-a. Espero que a Patrulha Maria da Penha esteja contribuindo para esse pensamento.

Para finalizar, qual sua mensagem final ao leitor do PIRANOT?
Primeiro, gostaria de agradecer a vocês pela entrevista. Segundo, gostaria de dizer que, em casos mais recentes (como é o meu caso dentro da GCM, como primeiro mulher no comando da instituição em 115 anos), sempre surgem novas oportunidades para outras mulheres. É bom que crianças e mulheres, dentro da sociedade, verifiquem que isso não é uma coisa diferente, mas uma coisa normal. Tem que ser normal as mulheres assumirem postos de comando, não apenas nos órgãos públicos, mas nos privados também.

Foto: Wagner Romano / Jornal PIRANOT
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